Coerência entre EaD na EPT, fluxo de produção e trabalho em equipes
Cada projeto de produção de materiais didáticos para EaD na EPT precisa ter definido – ou definir, como parte das próprias atividades do projeto – o que podemos chamar de política de formação, que orienta e sustenta uma sequência de decisões que precisam ser tomadas mesmo antes de ser iniciado o processo de produção.
É fundamental que os projetos voltados à produção de materiais didáticos para a Educação a Distância na EPT se orientem por diretrizes e referências previamente estabelecidas. Um exemplo significativo é o Curso de Pós-Graduação lato sensu EaD na EPT, no qual foram desenvolvidas diretrizes gerais alinhadas à Política Nacional de Formação de Profissionais para a EPT (Brasil, 2024a). Essas diretrizes contemplam princípios educativos, concepções e fundamentos teóricos e práticos, que subsidiaram a elaboração do Projeto Pedagógico do Curso (Brasil, 2024b) e, como consequência, a produção dos materiais didáticos digitais. Esse processo garantiu maior alinhamento e coerência entre as etapas de desenvolvimento.
Essa política de formação pode estar expressa no formato de diretrizes, como as diretrizes gerais da Política Nacional de Formação de Profissionais para a Educação Profissional e Tecnológica (Brasil, 2024a) e o documento base do Curso de Especialização em Educação na Cultura Digital (Brasil, 2013), ou nas diretrizes gerais da Iniciativa Trajetórias Escolares, Desigualdades e Diversidades (Brasil, 2020).
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Título: Documentos de Políticas de Formação que resultaram em MDDs
Fonte: Brasil (2013, 2024a) e Brick (2020).
Elaboração: Prosa (2025c).
Os documentos que estabelecem diretrizes para políticas de formação continuada reúnem, de forma articulada, o contexto legal, as demandas socioculturais que justificam a necessidade de formação, seus objetivos e estratégias, além das instituições e dos públicos envolvidos. Nesse contexto, os materiais didáticos para a EaD materializam seus propósitos e finalidade mais abrangentes.
Uma vez definidas ou constituídas as diretrizes para a política de formação, inicia-se o processo de elaboração do Projeto Pedagógico do Curso (PPC) e, como desdobramento desse, os materiais didáticos que, a depender do público, da finalidade, dos recursos e dos prazos, envolve processo de criação de identidade visual, identidade sonora, identidade linguística etc.
Quanto mais o processo de elaboração dos materiais didáticos estiver alinhado e aprofundar as intencionalidades político-pedagógicas presentes no PPC, bem como nas diretrizes gerais da política de formação – especialmente no que diz respeito às características e especificidades dos sujeitos aos quais se destina – maior será o potencial desses materiais de promover impactos significativos na formação desses indivíduos.
Nesse caso, é importante destacarmos que, ainda que exista a liberdade de cátedra de cada professor conforme preconizado no Artigo nº 206 da Constituição Federal de 1988 (Brasil, [2023]), não há docência fora de um contexto, fora de um projeto pedagógico explicitado ou não, formalizado ou não. Por exemplo, não há disciplina que integre um curso que não faça parte do PPC. Mesmo disciplinas isoladas ofertadas em uma instituição estão dentro da instituição, que prevê, em seu plano de desenvolvimento institucional (PDI) ou projeto político-pedagógico (PPP), determinadas intencionalidades pedagógicas da instituição.
Em conformidade com as diretrizes gerais e com o Projeto Pedagógico do Curso (PPC), os materiais didáticos devem antecipar seus formatos finais, bem como definir as equipes responsáveis por sua produção. Para apoiar esse processo, podem ser elaborados guias específicos que orientem o trabalho dessas equipes, tais como:
- O guia de ilustração, no qual constarão traços, estilos, paleta de cores e demais informações que orientação o padrão de qualidade das ilustrações prevista. Exemplo do Guia de ilustração do cursos de especialização em Docência, Gestão e EaD na EPT;
- O guia de design educacional, no qual constarão por exemplo, as etapas e os fluxos de produção, os elementos gráficos e suas funções pedagógicas. Exemplo do Guia de design educacional do cursos de especialização em Docência, Gestão e EaD na EPT;
- O guia de autoria, voltado para os especialistas que contribuirão com a escrita de textos-base relacionados ao assunto específico dos materiais didáticos. Exemplo do Guia de autoria do curso de especialização em Educação na Cultura Digital;
- O guia de linguagem, que estabelece as diretrizes para a padronização da linguagem utilizada nos materiais, garantindo clareza, acessibilidade e coesão e coerência textual. Ele define o tom comunicacional, a escolha vocabular e a adaptação da linguagem ao público-alvo, considerando aspectos como nível de formalidade, inclusão e adequação pedagógica. Exemplo do Guia de linguagem do cursos de especialização em Docência, Gestão e EaD na EPT.
No infográfico a seguir, podemos ver representações das equipes multiprofissionais em dois projetos distintos de materiais didáticos: um, no caso deste curso de especialização, com hipertextos compostos por ilustrações, infográficos, fotos e textos com elementos de destaque; e o outro, um material didático em Libras, do curso de Letras-Libras.

Título: Exemplos de equipes de produção de material didático
Fonte: Quadros (2021).
Elaboração: Prosa (2025d).
Em ambos os casos, é feito o detalhamento de atividades que cada equipe realiza e a possibilidade de criação de subequipes a depender das especificidades e da complexidade dessas atividades. Por exemplo, a equipe de vídeo para a produção de materiais bilíngue (Português-Libras) poderia contar com equipes de produção audiovisual, que estariam envolvidas com todos os preparativos, com uma equipe de captação que realizasse as gravações nos estúdios e com uma equipe de edição, que pudesse, desde a ilha de edição, trabalhar com a gravação bruta até a finalização do material didático. Esse aspecto é bem descrito no infográfico a seguir.
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Título: Fluxo de produção de material bilíngue
Fonte: Galasso et al. (2018).
Elaboração: Prosa (2025e).
Equipes e fluxo de produção
Os fluxos de produção dizem respeito à dimensão técnica dos materiais didáticos, tendo em vista a factibilidade de sua produção. Entretanto, é fundamental considerar as demais dimensões constituintes dos materiais didáticos, sobretudo se o objetivo for vivenciar os princípios da EPT nos processos de produção, uma oportunidade de formação integral por meio do trabalho, para todos os envolvidos.
Cabe lembrar que, ainda que haja inúmeros livros e artigos que abordam os processos de gestão de produção de materiais didáticos para EaD, com ferramentas de gestão ágil, como OKR, Scrum, Kanban, que podem inspirar esse processo de constituição e de gestão de equipes, organização dos guias, estabelecimento, acompanhamento e otimização de fluxos de trabalho, o fundamental a ser considerado na gestão da produção de MDDs é que, pela natureza e multidimensões que envolvem seus processos-produtos, não há soluções pré-estabelecidas fora do contexto dos agentes envolvidos diretamente na produção e utilização desses materiais. Conforme já destacado nas diretrizes:
O emprego de tecnologias digitais na educação profissional e tecnológica a distância requer, portanto, a problematização de iniciativas limitadas a prescrições fechadas e rígidas. Impõe, ao contrário, valorizar diferentes possibilidades de utilização dos recursos disponíveis e a necessidade de trabalhar a interação e a proximidade desses meios com as culturas e as práticas dos sujeitos envolvidos
Isso significa que, mais do que criar centros de produção de materiais didáticos para EaD autônomos e pretensamente autossuficientes, um dos desafios principais é de criar, no contexto em cada instituição que oferta EPT das redes municipais, estaduais e federais, uma cultura de produção de materiais locais a partir dos princípios e bases conceituais da EPT. Trata-se de uma tarefa coletiva de todos os profissionais engajados com a EPT:
[…] é fundamental lembrar o caráter social desse trabalho em EaD, que nunca será um trabalho individual, solitário e pessoal, e nunca estará separado da prática social, pois suas justificativas são inerentemente sociais, e sua obra, coletiva, proveniente da cooperação de muitos
O processo de aprendizagem das equipes envolvidas com a oferta da EaD, incluindo os processos de produção de materiais didáticos, segundo Freeman (2003), pode levar cerca de cinco anos para chegar a um amadurecimento.
É fundamental pensar sobre o desafio que se coloca mesmo para quem tenha experiência com EaD: realizar a construção coletiva da EaD na EPT em cada instituição como uma oportunidade de vivenciar nesse processo os princípios e as bases conceituais da EPT, a partir de leituras de conjuntura periódicas sobre a relação entre tecnologia e sociedade, com atenção à indexação e à curadoria dos conteúdos já disponíveis, assim como a mixagem deles, a fim de realizar a EPT necessária a uma formação integral e humana e que contribua para desenvolvimento da soberania nacional.
Se um dos desafios à docência em EPT diz respeito à reprodução de práticas docentes descontextualizadas da sua finalidade social (confundindo a finalidade das instituições que ofertam EPT com a finalidade das universidades), então acolher, no âmbito das instituições que ofertam EPT, a demanda de ofertar EaD internalizando processos de produção de materiais didáticos como projetos de ensino, pesquisa e extensão não seria uma oportunidade de reflexão sobre os próprios processos de formação realizados? Não seria, nesse caso, uma oportunidade de realizar processos de reflexão e formação sobre a prática educativa realizada cotidianamente?
Na seção seguinte, abordaremos a possibilidade de articular pesquisa, ensino e extensão com os processos de produção de materiais didáticos.