No início, era o papel…

Quando se aborda o tema dos materiais didáticos, em geral somos remetidos à imagem do livro didático tradicional, em papel, utilizado especialmente na Educação Básica, como item das nossas mediações pedagógicas. Isso porque, de fato, esses recursos educacionais têm uma importância singular nos processos de ensino-aprendizagem, uma vez que selecionam, organizam e transpõem didaticamente os conhecimentos considerados fundamentais em determinada área do conhecimento.
    
No caso da Educação a Distância (EaD), esses recursos educacionais físicos, durante muito tempo, também tiveram papel fundamental, visto que eram os únicos mediadores da aprendizagem – em especial, na primeira geração da EaD, em que o ensino era realizado por meio da correspondência. No Brasil, por exemplo, o Instituto Universal Brasileiro ocupou um lugar significativo na EaD por correspondência, pela oferta de cursos de diversas naturezas, entre eles, cursos com caráter profissionalizante, possibilitando o acesso a formações independentemente da localização geográfica.

… depois, veio a televisão…

Mais tarde, com a expansão do sistema de televisão no Brasil, correspondente à segunda geração da EaD (Mill, 2016), um dos exemplos de educação a distância foi o Telecurso 2000. Tal iniciativa consistia em videoaulas transmitidas pela Rede Globo de Televisão a respeito de conteúdos do ensino fundamental e médio e de cursos profissionalizantes, os quais poderiam ser acompanhados por apostilas impressas. Esse formato de material didático, em vídeo, já permitia a incorporação de outras linguagens, como imagem em movimento, narração, esquemas dinâmicos e efeitos visuais, que possibilitaram formas diversificadas de representação dos objetos de conhecimento.

… e, por fim, a internet…

Com a democratização do acesso à internet e a dispositivos eletrônicos, uma nova forma de se fazer educação a distância foi possível, e dela passaram a fazer parte outros tipos de materiais didáticos, os digitais. Tais materiais incorporam os sistemas semióticos (conjuntos de signos verbais e não verbais) dos materiais tradicionais em papel, das videoaulas, com voz e imagem em movimento e se acrescenta uma característica transformadora: a interatividade. Assim, os MDDs, além de se constituírem de uma multiplicidade de linguagens, ainda permitem ao estudante a realização de percursos de leitura bastante diversos.

O GIF mostra três ilustrações que aparecem em ordem, cada uma representando um período da Educação a Distância. A primeira ilustração mostra uma caixa dos Correios amarela, os livros didáticos do Instituto Universal Brasileiro e um banner do instituto com um mapa do Brasil, indicando que os materiais eram enviados para todo o país. A segunda ilustração mostra livros didáticos empilhados e materiais de estudo, como caneta, lápis, papel e borracha, à frente de uma televisão com a logo do Telecurso 2000 na tela. A logo consiste no nome escrito em vermelho entre duas linhas horizontais, em cima e embaixo. A última imagem é de uma mão segurando um telefone. Na tela, vemos a página de um dos cursos da Educação Profissional Tecnológica na qual lemos o título “EaD: Desafios e Perspectivas”.

Título: Progressão da EaD
Fonte: Prosa (2025a, 2025b, 2025c, 2025d).

Esses três contextos de EaD exemplificam formatos que os materiais didáticos tiveram ao longo do tempo e como se deu a sua transformação nos eixos social, pedagógico, político e tecnológico e as profundas mudanças nos sistemas semióticos que os compõem, bem como o seu agenciamento nos discursos em que se materializam. Um dos aspectos mais evidentes diz respeito às mudanças que aconteceram tendo em vista as novas possibilidades de suporte – ou de mídia (Bonini, 2011) – e às formas de interação social, que ocasionaram a emergência de novos – e, alguns deles, efêmeros – gêneros discursivos: o e-book, os blogs, os podcasts, os webstories, os shorts e os reels.

A era do digital, em alguma medida, também tirou a primazia da produção e da circulação do conhecimento de grandes editoras, permitindo que sujeitos à margem dos grupos editoriais e do meio acadêmico se tornassem produtores de conteúdo, ampliando, assim, também o acesso aos saberes sistematizados, já que a web passou a ser um grande repositório de informações e de dados. Essa abertura à produção e à circulação do conhecimento coloca igualmente novos desafios, como a necessidade de uma criteriosa curadoria , tendo em vista fenômenos como o das fake news e o das bolhas digitais, que promovem enviesamentos nas informações que chegam aos usuários, exigindo uma leitura crítica, em especial quando esses conteúdos são tomados com uma finalidade pedagógica.

Para saber mais sobre o Breve histórico da produção de material didático para a EaD acesse o hiperlink.

Para saber mais: a curadoria de MDDs

De acordo com Lopes, Sommer e Schimidt (2014, p. 60), o termo 'curadoria' vem do campo das Artes, referindo-se à “pesquisa e [à] seleção aprofundada de obras relacionadas a um campo temático – um assunto ou um período histórico – a um artista, grupo de artistas ou escola". É a partir desse sentido que os autores defendem que a ideia inicial de curadoria como cuidar (curar) foi sendo modificada para ideia de experienciar e produzir sentido a partir do que se foi selecionado nos termos de uma curadoria aberta. Assim, trata-se de uma prática educativa que objetiva selecionar, organizar e socializar o conhecimento a partir de diferentes recursos com vistas a potencializar a aprendizagem por meio dos materiais digitais e da atuação do professor. 

Para aprofundar a discussão sobre curadoria, sugerimos a leitura e reflexão em seu Memorial do artigo Professor-propositor: a curadoria como estratégia para a docência on-line de Daniel de Queiroz Lopes, Luis Henrique Sommer e Saraí Schmidt (2014), publicado na Revista Educação & Linguagem.

Os textos digitais – também chamados de hipertextos – constituem um complexo entrelaçamento de sistemas semióticos e de possibilidades de leitura não lineares, uma vez que, a exemplo do material que você usa neste curso de especialização, é possível construir percursos de leitura com textos em hiperlinks, assistir a vídeos, acessar referências em boxes com informações adicionais – ou, simplesmente, seguir o itinerário de leitura do texto que se apresenta na tela. É nesse sentido que os MDDs apresentam uma maior interatividade e são, por natureza, multimodais, ou seja, incorporam diversas linguagens que se arranjam em um leiaute específico.

Lemke (2010, p. 472) argumenta que o hipertexto, ao oferecer uma leitura em duas ou em três dimensões, também provoca impactos nos processos de aprendizagem em relação aos conhecidos livros-texto presentes na primeira geração das tecnologias de aprendizagem interativas:

Agora, a aprendizagem muda. Ao invés de sermos prisioneiros de autores de livros texto e de suas prioridades, escopos e sequência, somos agentes livres que podem encontrar mais sobre um assunto que os autores sintetizaram, ou encontrar interpretações alternativas que eles não mencionaram [...]. Podemos mudar o assunto para adequá-lo ao nosso juízo de relevância para nossos próprios interesses e planos e podemos retornar mais tarde para um desenvolvimento padrão baseado no livro texto

Lemke (2010, p. 472).

A seguir, com o objetivo de aprofundar a discussão em torno das questões relacionadas à multimodalidade e aos sistemas semióticos, retomaremos alguns conceitos teóricos importantes, especialmente porque podemos correlacionar com elementos da EPT. Contudo, antes disso, reflita sobre a seguinte questão: por que podemos afirmar que a língua é um instrumento de poder e de dominação social?  

João Wanderley Geraldi nos ajuda nesta reflexão a partir de uma passagem do livro O texto na sala de aula ([1984]/2002). Nessa obra, o autor discute aspectos relacionados às variedades linguísticas, em especial àquelas faladas pelas classes populares, e pontua que a linguagem é uma forma de bloqueio ao poder; por outro lado, afirma, ainda, que o domínio da variedade linguística considerada de prestígio permite romper esse bloqueio. Isso porque há fatores históricos, sociais, políticos e ideológicos que fazem com que determinadas variedades linguísticas sejam consideradas cultas e outras não. Nas palavras do autor, "uma variedade linguística 'vale' o que 'valem' na sociedade seus falantes, isto é, vale como reflexo do poder e da autoridade que eles têm nas relações econômicas e sociais" (p. 43).