Os sistemas semióticos, os signos e a interação verbal
Para iniciarmos este tópico, considere as imagens a seguir:

Título: Yin and Yang symbol
Fonte: Klem (2007).
O Taijitu, da filosofia chinesa, ficou amplamente conhecido como "símbolo do Yin-Yang" e representa o equilíbrio e a complementaridade entre opostos.

Título: Red hammer and sickle
Fonte: Henrique1308 (2025).
Já a segunda imagem, a foice e o martelo, representa a união entre a classe trabalhadora industrial e rural.

Título: Peace sign
Fonte: Holtom (2006).
Por fim, a imagem acima foi criada para a Campanha pelo Desarmamento Nuclear, na Grã-Bretanha em 1958, quando o mundo passava pelo período da Guerra Fria. Não tardou a se tornar um dos "símbolos da paz" mais amplamente conhecidos, propulsionado pelo movimento hippie estadunidense (CND, 2025).
O que essas três imagens têm em comum? Elas representam algo da realidade. Contudo, essa representação não é neutra, ela é carregada de valor ideológico, razão pela qual tais imagens são, na verdade, signos (Bakhtin, 1992).
Os signos, contudo, não existem isoladamente, mas se organizam em sistemas nos quais compartilham características e estabelecem inter-relações. Existem várias teorias em cuja centralidade está o conceito de signo, as quais estão ligadas a vários campos do conhecimento, dentre eles, o da Semiótica. Em se tratando de textos digitais e da multimodalidade, nos quais encontramos várias linguagens – e, portanto, vários sistemas semióticos em interação –, um dos estudiosos contemporâneos mais relevantes é Gunther Kress, que desenvolveu o que denomina de Semiótica Social. Grosso modo, essa teoria postula que a escolha dos signos se dá em função do contexto social (Santos, 2011) e compreende a semiose humana como “um fenômeno inerentemente social em suas origens, funções, contextos e efeitos [...]” e que “os significados sociais são construídos por meio de uma série de formas, textos e práticas semióticas de todos os períodos da história da sociedade humana” (Hodge e Kress, 1988, p. 261).
Por que é importante pensarmos sobre o valor ideológico dos signos e qual a sua relação com os materiais didáticos? Porque, segundo Bakhtin (1992), não é possível existir uma representação da realidade que não tenha algum valor ideológico intrínseco. Além disso, quando escolhemos algum material didático, seja ele imagético e/ou verbal, digital ou impresso, estamos, inevitavelmente, apresentando apreensões, visões da realidade. Esses signos, que representam parte da realidade, podem ser-lhe fiéis, distorcê-la ou apreendê-la de um ponto de vista específico.
Os signos, portanto, para além do seu caráter ideológico, apresentam propriedades materiais, “seja como som, como representação imagética, como movimento ou como massa” (Bakhtin, 1992, p. 33) e estão no universo das relações sociais, tendo como princípio fundamental a organização social dos sujeitos e a sua interação por meio desses signos. Sendo os signos ideologicamente constituídos e estando o sujeito em constante interação social, tem-se que “a consciência individual é um fato socioideológico” (Bakhtin, 1992, p. 35). Assim, para Bakhtin (1992), a consciência individual, em realidade, é uma consciência interindividual, porque é na coletividade que os sujeitos estão situados, sendo, portanto, compartilhadas formas de representação e de concepção do mundo. Cabe ressaltar, contudo, que essa coletividade não é homogênea; para Bakhtin (1992), ela encarna a estratificação social e a luta de classes.
Vejamos outros exemplos de representações bastante conhecidas, como os mapas. A projeção de Mercator, de 1569 d.C., é a representação cartográfica do globo terrestre mais difundida e coloca em evidência os países europeus. Essa centralidade da Europa traz consigo a ideia de que as nações europeias correspondem ao centro do mundo, tanto cultural quanto espacialmente.

Título: Projeção de Mercator
Fonte: Golvino (2023).
Elaboração: Prosa (2025e).
Por outro lado, algumas projeções, como o mapa invertido e a América Invertida (1943), de Joaquim Torres Garcia, questionam politicamente modelos cartográficos que destacam o hemisfério norte geográfico, ao qual está associada uma relevância social, econômica e cultural em detrimento dos países do hemisfério sul geográfico, considerados subdesenvolvidos. A obra desafia a visão eurocêntrica do mundo, valorizando o ponto de vista do hemisfério sul.

Título: Joaquín Torres García - América Invertida
Fonte: García (1943).