A multimodalidade e os materiais didáticos digitais

O mundo em que vivemos é um universo multimodal. A comunicação humana é, por natureza, multimodal, já que aliamos a linguagem verbal à linguagem gestual – nossas expressões faciais, entonação de voz, os gestos que produzimos com as mãos e até a postura que adotamos em uma conversação: ambas devem ser lidas de forma integrada para a compreensão do sentido que se deseja comunicar. Para além do mundo digital, também encontramos a multimodalidade no teatro e na dança. Isso significa que a multimodalidade não é um fenômeno intrínseco às interações mediadas pela tecnologia, mas faz parte propriamente das formas de ser, de existir e de se relacionar em sociedade (Rojo e Almeida, 2012).

Contudo, é no digital que a multimodalidade ganhou sua maior expressividade pela capacidade de suporte das mídias, o que fez surgir novos gêneros discursivos. Os gêneros discursivos, que são tipos de enunciados que organizam as formas, os temas e os estilos de linguagem, organizam nossos discursos e são dinâmicos como o são as formas de interação. Em tempos mais remotos, as comunicações aconteciam por meio de cartas e telegramas; após, vieram os e-mails; atualmente, ainda se utiliza o e-mail para finalidades muito específicas, e outros gêneros surgiram para cumprir essa função comunicativa. Esses novos gêneros surgiram porque houve, também, mudanças nas tecnologias de que a humanidade dispõe: antes, o papel; agora, o digital. Assim como a prática social é produtora de conhecimento e este é uma construção de toda a humanidade, as práticas sociais de linguagem são produtoras de novos gêneros discursivos, porque estes não estão apartados do contexto global em que os indivíduos estão organizados.

O recurso é uma montagem que exemplifica diferentes gêneros discursivos. O fundo é azul, com detalhe pontilhado branco. No centro está o título “Gêneros Discursivos” e as seguintes imagens: uma carta, uma placa de PARE, um outdoor, uma mensagem de texto e um pop-over de um site.

Título: Diferentes gêneros discursivos
Fonte:
Angel_shark (2006); Deutsche Post (2015); OpenAI (2025); PantheraLeo1359531 (2023); Thetaxhaven (2012); Ulloa (2009).
Elaboração:
Prosa (2025f).

Gêneros que circulam nas redes sociais apresentam características que têm modificado a forma como os sujeitos se relacionam com os conteúdos, demonstrando, por exemplo, uma predileção por vídeos curtos e textos em linguagem simples, permeados por humor e ironia, a exemplo dos shorts, dos reels, dos tweets, dos memes, dos GIFs, entre outros gêneros discursivos intrínsecos às ferramentas presentes no universo digital (Andrade e Rodrigues, 2017). Ou seja, os sistemas semióticos utilizados nestes gêneros permanecem os mesmos de outrora; contudo, as formas de agenciamento sofreram modificações.

A atenção às formas como os sujeitos interagem em suas práticas sociais é um indicador significativo na concepção, produção, curadoria e avaliação de MDDs – em termos de formato e de linguagens – de modo a estarem organicamente inseridos no universo dos estudantes. Por exemplo, complementarmente aos mapas apresentados anteriormente, poderíamos utilizar a imagem a seguir que ilustra o tamanho “real” dos países, comparando-os uns com os outros, o que revela que a escolha de determinada projeção cartográfica para representar o globo terrestre pode distorcer a escala dos países e continentes, dando-lhes maior ou menor relevância.

O infográfico mostra dois mapas feitos a partir de duas projeções diferentes e destaca três territórios em ambos: Groenlândia, África e Antártida. É possível perceber, pela comparação, que, na projeção Equiretangular, a Groenlândia e Antártida parecem menores quando comparado com a projeção de Mercator. Já o continente africano não sofre uma mudança tão drástica nas diferentes projeções.

Título: Territórios comparados em tamanho
Fonte:
MDF (2006, 2008).
Elaboração:
Prosa (2025g).

Por outro lado, é fato que o suporte virtual não é garantia de qualidade em um material didático, da mesma forma que a utilização de recursos tecnológicos, por si só, não evita que se promova uma educação bancária (Freire, 2004), segundo a qual os recursos tecnológicos sintetizassem todo o conteúdo a ser "depositado na cabeça" do educando que, por sua vez, se reduziria a um mero receptáculo passivo daquele conteúdo tomado como pronto e acabado. Assim, não são os recursos pedagógicos em si mesmos, o seu formato ou a sua composição multimodal que chancelam processos de aprendizagem significativos, críticos, emancipatórios; são esses materiais aliados ao uso pedagógico que se faz em contextos em que se consideram os sujeitos envolvidos nos processos, os objetivos de aprendizagem e os objetos de conhecimento que se tomam como tema.

Nesse ponto, educadores encontram um desafio: como incorporar os gêneros discursivos típicos da contemporaneidade aos recursos pedagógicos, diminuindo o descompasso entre discursos que circulam fora dos ambientes educacionais e aqueles utilizados como materiais didáticos sem, contudo, incorrer em uma pedagogização excessiva dos conteúdos? 

Os materiais didáticos são mediadores da aprendizagem e seus recursos constitutivos funcionam de forma complementar uns aos outros. Assim, consideramos possível incorporar a eles elementos do universo contemporâneo das interações mediadas pelas tecnologias, porque elas fazem parte do cotidiano interacional e da situação social mais imediata em que a ação pedagógica acontece.

Práticas inspiradoras

Os recursos elaborados para o material que você utiliza neste curso de especialização buscam trazer a integração de linguagens – a multimodalidade, com especial atenção aos valores ideológicos que lhe são inerentes. A ilustração abaixo visa valorizar a diversidade étnica e cultural dos sujeitos da EPT, representada nas características físicas e nas vestimentas dos personagens:

A ilustração pretende mostrar como são plurais os participantes da EPT. Nesse sentido, é possível observar ao fundo diferentes locais de origem: campo, cidade grande e comunidade. Mais à frente, estão quatro pessoas com mochilas, debatendo e escrevendo em um quadro branco. A primeira pessoa tem pele escura, cabelo preto curto. A segunda é uma mulher branca e loira de meia idade. A terceira é um homem com traços negros ou indiano – ele segura uma caneta e escreve no quadro enquanto debate com os demais. Por último, há uma mulher negra de cabelos cacheados.

Título: Pluralidade no contexto da EPT
Fonte:
Prosa (2025h).

Além disso, pretendemos contemplar a pluralidade desses sujeitos nos elementos pedagógicos dos materiais, que visam a atender aos variados estilos de aprendizagem: é por isso que nele você encontra ilustrações, esquemas, infográficos, colagens, vídeos, sugestões de filmes e de artigos ou capítulos de livros, para que as experiências de aprendizagem com este material sejam significativas para a maioria dos seus usuários, considerando os propósitos deste curso e o seu contexto de oferta. Contudo, Lemke (2010, p. 473) alerta que

a chave para os paradigmas de aprendizagem interativos, no entanto, não são nem os hiperlinks nem a multimídia, mas a interação por si mesma. A mídia interativa apresenta a si mesma de forma diferente para diferentes usuários, dependendo das ações deles próprios.

Ou seja, os MDDs são concebidos, planejados e produzidos em função dos processos de ensino-aprendizagem que orientam as formações das quais fazem parte e, no contexto da EaD, a interação entre o sujeito que aprende e o material é fundamental para a aprendizagem. Nesse sentido, em razão das inúmeras possibilidades de contextos de EPT e de oferta de educação a distância, apresentar formas rígidas e instrumentais de produzir, selecionar e avaliar materiais didáticos pode se tornar uma armadilha. Assim, os docentes das disciplinas são os sujeitos mais qualificados para analisar os contextos em que atuam, seus objetivos de aprendizagem, os conhecimentos que tomam por objeto, suas concepções de ensino, de aprendizagem e de sujeito, os sujeitos reais e as condições sociais em que interagem para, então, produzir, selecionar e avaliar materiais didáticos compatíveis com essa variedade de possibilidades pedagógicas.

Outra característica dos materiais que você utiliza neste curso é a aproximação entre os atores dos processos formativos – autores e estudantes –, razão pela qual a maioria das UTs apresenta vídeos de boas-vindas das pessoas autoras do conteúdo, além de uma linguagem dialógica, características que são próprias de MDDs produzidos para o contexto da EaD. 

Além disso, observa-se que esses materiais são pensados para dispositivos eletrônicos como desktops e notebooks, mas também para smartphones. Isso porque, na contemporaneidade, há uma preferência dos usuários para acessar informações por tecnologias móveis em detrimento das tecnologias fixas – e até mesmo uma substituição das segundas pelas primeiras (Andrade e Rodrigues, 2017).

Para refletir: produção e curadoria de MDDs

Em algum momento da nossa trajetória como docentes, todos nós produzimos ou selecionamos MDDs: elaboramos slides utilizados como recursos didáticos em aulas através de aplicativos como Microsoft Powerpoint, Canva, Google Apresentações e Prezi; utilizamos recursos do Moodle como apoio ao ensino presencial, fazemos curadoria de imagens – fotografias, ilustrações, esquemas – e de vídeos para ilustrar conceitos. Assim, considerando a sua experiência na produção e na curadoria de recursos educacionais, reflita:

  1. Quais critérios você leva em consideração na seleção desses materiais?
  2. Que linguagem é utilizada para comunicar conceitos nesses materiais?
  3. Como os princípios da EPT podem auxiliar na produção e na seleção desses recursos?

Anote suas reflexões em seu Memorial e/ou siga as instruções de seu professor e/ou tutor.