Você viu, a partir dos exemplos anteriores, a importância de compreender os contextos de produção de materiais didáticos para a EaD. Cada processo de produção de material didático está inserido em um projeto político, em uma época e local específico, expressando concepções e fundamentos de um projeto político de curso. Nesse sentido, agora vamos adentrar os processos de produção de MDDs na e para EPT.

Conceber a produção de materiais didáticos na e para EPT, sobretudo como parte da oferta de EaD, demanda enfrentarmos o desafio coletivo de situar essa atividade em relação às transformações do trabalho no contexto sócio-técnico atual e em relação à totalidade vigente. Conforme apresentado nas Diretrizes Gerais da Política Nacional de Formação de Profissionais para a Educação Profissional e Tecnológica (Brasil, 2024) – que mencionaremos apenas como Diretrizes ao longo deste capítulo:

[...] é preciso considerar o contexto mais amplo em que se circunscreve a EaD, pois sua realidade técnica é parte da realidade social, nos quadros da qual o processo técnico se constitui e se desenvolve fazendo mediações. Igualmente, é necessário levar em conta como os objetos técnicos envolvidos na digitalização do trabalho humano, inclusive das atividades na EPT, vem se inserindo e se concretizando de diferentes maneiras

(Brasil, 2024, p. 41).

Nesse sentido, buscaremos explicitar alguns dos elementos da transformação do contexto mais amplo, contexto técnico-científico e do trabalho, para refletirmos sobre a necessidade e o desafio de considerar seu impacto na concepção e na gestão da produção de materiais didáticos na e para a EPT.

O meio técnico-científico-informacional e a globalização

A emergência do meio técnico-científico-informacional (Santos, 2023) foi acentuada principalmente com o que se chamou de Web 2.0 a partir dos anos 2000 com a participação dos usuários na produção e no compartilhamento de informações. Isso tem mudado profundamente as relações sociais e econômicas por partir de redes e fluxos possíveis com a fusão entre técnica, ciência e informação, com artificialização do meio e pelo fenômeno da globalização.

Na década de 1990, Milton Santos já situava esse fenômeno como globalização enquanto fábula, na qual se sugere a globalização como algo que inevitavelmente beneficiará a todos mediante a uma democratização dos bens culturais e materiais. O autor traz também as perspectivas da globalização enquanto perversidade, que esconde o lado perverso da globalização como produtora de sofrimento, desigualdades e injustiças, e também a globalização enquanto possibilidade, que se refere à popularização do acesso aos meios técnico-científico-informacional a fim de permitir a emergência desde baixo, desde as populações excluídas do acesso aos bens e serviços gerados pela globalização, promovendo o restabelecimento entre o particular e o universal na construção de uma outra globalização (Santos, 2023). Ou seja, a expansão das redes informatizadas permitiu formas de comunicação inéditas com lugares remotos, gerando uma dupla possibilidade: de acesso por esses lugares remotos à cultura mundial e a mundialização dessas culturas locais.

Para saber mais: conceito de Globalização

Para entender melhor o conceito de globalização de Milton Santos, veja:

  • Um exemplo de globalização enquanto perversidade acontece com a representação única, geralmente estereotipada, que acaba sendo mobilizada para se referir a contextos socioculturais distintos ao padrão hegemônico. Pode-se observar isso no livro O perigo da história única, da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, escrito após uma fala sob o mesmo título em uma conferência TED em 2009.
  • Globalização enquanto possibilidade: exemplos desses fenômenos são retratados pelo documentário de Silvio Tendler "Encontro com Milton Santos: o mundo global visto do lado de cá", de 2006.

 

Transformações geradas com a expansão informacional-digital

O meio técnico-científico-informacional traz consigo e é representado por diversas mudanças. Uma delas é a prática de marketing – exercendo um papel fundamental na sociedade capitalista de gerar “necessidades” –,  que antes tinha seu ápice na disseminação de propagandas de produtos e serviços pela rádio e, depois, pela TV. A partir da popularização do acesso a celulares e a outras tecnologias com acesso à internet, que integram as pessoas às redes informacionais, o marketing passa a ter um direcionamento refinado para o público que demonstra interesse em produtos específicos a partir da busca ativa ou da interação direta com conteúdo em sites e em redes sociais on-line. 

Isso se dá por meio de algoritmos que “adivinham” aquilo em que o usuário tem interesse com base em seus dados, como localização, comportamento de cliques anteriores e histórico de pesquisa. Essa forma direcionada de anúncios e entrega de conteúdos por sites e redes sociais, que antes do advento da Web 2.0 não era possível, tem gerado alguns impactos, a partir dos quais podemos pensar em processos de produção de materiais didáticos que não sejam anacrônicos. Alguns deles são:

O isolamento intelectual diz respeito ao poder que passam a ter os algoritmos, em sua grande maioria não explícitos e com controle exclusivo das big Techs, condicionando a própria leitura da realidade da população, gerando estados de isolamento intelectual, a partir do que tem sido chamado de filtro bolha (Parisier, 2012).

Já a plataformização do trabalho conceitua que as empresas, nas últimas décadas, com a expansão informacional-digital e sob comando dos capitais, vão contra a rigidez taylorista e fordista vigente nas fábricas da “era do automóvel” durante o longo século XX. Como resultado negativo disso, é possível observar a terceirização, a informalidade e a flexibilidade (Antunes, 2020). Nesse contexto, as relações de trabalho são cada vez mais individualizadas e invisibilizadas, sendo o assalariamento e a exploração cada vez mais encobertos. Esse processo tem sido chamado de uberização do trabalho (Antunes, 2020).

O protagonismo descentralizado do público na produção de conteúdos digitais, ou seja, a própria emergência e estrutura das redes sociais possibilita o surgimento de novas atividades como dos Youtubers, Tiktokers e demais tipos de  influenciadores nas diversas redes sociais. Outro aspecto é o papel de criador de conteúdos que cada usuário passa a ter nas plataformas digitais e redes sociais.

Ou seja, não apenas houve um processo de popularização dos artefatos eletrônicos que possibilitam ao povo produzir e disseminar conteúdos, mas essa descentralização e participação da população passa a ser uma necessidade, para gerar engajamentos e consumidores de serviços e produtos que já não atendem às necessidades humanas fundamentais, mas sobretudo às necessidades inventadas para reprodução do sistema.

Se os processos de produção do conteúdo digital estão popularizados e capitalizados pelas big Techs, condicionando a própria leitura da realidade da população, baseada, muitas vezes, em fake news, e reforçando valores como a competição, o consumismo, o individualismo, então isso implica que estamos diante de desafios novos, que exigem a apropriação de novas técnicas e de conhecimentos que já estão a serviço dessas empresas. 

Reconhecer esse fenômeno não significa que a única saída seja adaptar a realidade escolar a esse contexto, a adaptação à “era tecnológica”, à qual só seria possível se adaptar, como se estivéssemos diante do fim da história (Vieira Pinto, 2005). Reconhecer esse fenômeno torna mais evidente a necessidade de uma EPT à frente do seu tempo, orientada à emancipação, à transgressão da ordem sociocultural vigente. Em particular na educação e na produção de materiais didáticos, não basta realizar a sua digitalização, mas reinventar os processos de circulação e de sua produção, respondendo a projetos político-pedagógicos explicitamente voltados à formação integral do cidadão e à sua emancipação. 

Para saber mais: algoritimos e a era tecnológica

O que é “algoritmo”?

Um algoritmo é uma sequência de instruções claras e finitas que permite a resolução de problemas ou a execução de tarefas específicas. Um algoritmo é um conjunto de regras bem definidas que descrevem como realizar uma tarefa ou resolver um problema. Ele toma uma entrada, processa essa entrada seguindo as etapas predefinidas e produz uma saída. Um algoritmo deve ser claro e preciso, garantindo que as instruções possam ser seguidas com exatidão, sem ambiguidade (O que [...], c2025).

A realidade escolar brasileira

A realidade escolar brasileira já está em processo de adaptação à “era tecnológica”. Saiba mais sobre o contexto em que vivemos lendo os materiais: "Educação em um cenário de plataformização e de economia dos dados: problemas e conceitos" (CGI.BR, 2022) e "Educação em um cenário de plataformização e economia de dados: soberania e infraestrutura" (CGI.BR, 2023).