A produção de MDDs para EaD é condicionada por um contexto político?
Por onde começa a produção de materiais didáticos para a EaD? Poderíamos dizer que a produção de materiais didáticos e seu processo de gestão respondem às demandas de um contexto e de um projeto político específico, explícito ou não, includente ou excludente.
Podemos mencionar, a título de exemplo, os materiais didáticos em múltiplas linguagens produzidos no âmbito da “era dos projetos” para impulsionar a formação de cientistas devido ao atraso do ocidente na corrida espacial durante a Guerra Fria.
Para saber mais: a Era dos Projetos
A "Era dos Projetos" (Alves Filho, 2000) foi um período no qual um conjunto de ações educativas foram feitas a fim de incentivar jovens a seguirem carreiras científicas. Isso aconteceu em resposta ao lançamento do Sputnik 1, o primeiro satélite artificial a ser lançado com sucesso na órbita da Terra, pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 1957, em meio à Guerra Fria.
Esse evento foi um marco na ciência espacial e mostrou ao ocidente o potencial técnico-científico da URSS em contraponto à imagem de atraso que se tinha. Além disso, deu início à Corrida Espacial entre as duas potências da época – URSS e Estados Unidos –, o que gerou investimentos financeiros vultosos dos EUA, entre eles os grandes projetos de ensino, tais como o Biological Science Curriculum Study (BSCS); Physical Science Study Committee (PSSC); Chemical Study Group (CHEM); Chemical Bond Approach (CBA), que tiveram – e ainda têm – grande impacto no ensino de ciências no Brasil (Krasilchik, 1992).

Título: PSSC - Physical Science Study Committee
Fonte: PROFIS (c2020).
Com objetivo de ensinar Ciências com foco às necessidades da época, pela primeira vez os projetos curriculares de matérias como Química, Física, Biologia e Matemática foram produzidos por especialistas da época, como cientistas, jornalistas, psicólogos etc. (Ortega, Rodrigues e Mattos, 2017).
Entre os materiais didáticos que compuseram esse projeto, havia livros do estudante, manual do professor, experimentos, filmes etc., envolvendo centenas de profissionais que trabalharam por cerca de cinco anos no processo de produção desses materiais (Killian Jr., 1964).
Também podemos mencionar a existência de materiais didáticos para a EaD em múltiplas linguagens que fizeram parte de projetos de formação nacionais, tais como:
- O primeiro curso de graduação em Letras-Libras, de abrangência nacional em 15 estados brasileiros, na modalidade Educação a Distância (EaD), surgiu da necessidade de atender às demandas formativas decorrentes da inclusão de pessoas surdas na educação, conforme previsto no Decreto nº 5.626, de 2005 (Brasil, 2005).
- O curso de especialização "Educação, Pobreza e Desigualdade Social" voltado para a formação continuada de profissionais da educação básica e demais profissionais envolvidos com políticas sociais relacionadas à educação do público (crianças, adolescentes e jovens) em situação de pobreza ou extrema pobreza (Brasil, 2014), tendo em vista que em 2012 eram mais de 22 milhões de pessoas nessa situação no Brasil.
- A oferta nacional do curso de “Educação na Cultura Digital” na modalidade EaD criado pela Portaria nº 522, de 1997 (Brasil, 1997), com o objetivo de oportunizar o acesso e promover o uso pedagógico das tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC), visto que as comunidades escolares já estavam acessando as tecnologias e havia o desafio de integrar isso aos currículos escolares.
Além desses, podemos destacar como projeto envolvendo a produção de materiais didáticos a própria Wikipédia, como parte de um projeto de abrangência mundial com a finalidade pretensiosa de sistematizar o conhecimento humano de forma colaborativa, imparcial e gratuita, sendo considerada um dos sites mais visitados do mundo (Ribeiro e Gottschalg-Duque, 2012); trata-se de um Recurso Educacional Aberto (REA) (Cardoso e Pestana, 2018), uma enciclopédia que não tem a pretensão de ser fechada, que é dinâmica e expansível (Scotta, 2008).
- Livro "Letras Libras: ontem, hoje e amanhã" (Quadros, 2014).
- Formação de Educadores na Cultura Digital: a construção coletiva de uma proposta (Cerny et al., 2017).
- Coleção Pobreza Educação, pobreza e desigualdade social (Garcia et al., 2017).