Material didático digital: potencialidades e limites

Pressupõe-se que todo material didático pode ser textual (por exemplo, livro didático ou paradidático) e não textual (por exemplo, objetos, modelos, simuladores, jogos etc.), físico ou digital, e pode ser utilizado como mediação de práticas pedagógicas e adaptado para públicos e contextos específicos.

Paradidático

“Não há um padrão definido de paradidático e os editores compõem com certa liberdade livros de formatação variada, coloridos e fundamentalmente dotados de temáticas e propostas teórico-metodológicas aparentemente inovadoras. A invenção do novo é cuidada nos mínimos detalhes: tamanho, a forma dos livros, letras, qualidade do papel, variedade de cores, ilustrações" (Zamboni, 1991, p. 2). Na forma dos livros, no caso dos paradidáticos, a acessibilidade do material importa a fim de torná-los livros acessíveis (livros ampliados, com diferentes texturas, com boa relação de contraste, audiolivros, uso de fontes sem serifa, livros em Braille, com a interpretação em Libras, dentre outros) (Livro Acessível, 2017).

Nesse sentido, um material se torna didático por estar organizado de modo a apresentar características e/ou informações que possibilitam o acesso a conhecimentos já sistematizados e/ou a produção de novos conhecimentos.

A ilustração mostra o desenho de diversos componentes que remetem a conhecimentos sistematizados, como uma escola, um violão, um globo, entre outros, que saem da tela do computador e atravessam o estudante, simbolizando o acesso e a assimilação desses conteúdos.

Título: Dinâmica na relação entre ser humano e contexto
Fonte:
EPTrilhas (2023).

Os materiais didáticos são sempre resultado de transposições didáticas  de saberes – conteúdos e conceitos – pensados e organizados com vistas a facilitar o processo de ensino-aprendizagem dos sujeitos.

A informação contida em um material didático em si não garante a produção de conhecimento novo ou a aprendizagem. Esse último se dá pelo encontro entre aquilo que pode carregar o material didático (conceitos, problematizações, reflexões etc.) e as mediações que este material possibilita entre os próprios materiais, os educandos e/ou os educadores. 

Todo material didático, a priori e de modo geral, é pensado a partir de intencionalidades pedagógicas bem definidas, por profissionais da educação  que podem ser de diferentes áreas e saberes: especialistas no conteúdo específico, redatores, revisores textuais, designers educacionais, designers gráficos, ilustradores, programadores, pesquisadores da área da educação, entre outros. Essa equipe multiprofissional, na maioria dos casos, organiza o conhecimento em direção ao seu uso como facilitador do ensino e da aprendizagem.

Título: Saberes, mediação e o material didático
Fonte:
Agência Brasília (2022); American Institutes for Research (2017); Boyle (2012); Comisión Interamericana de Derechos Humanos (2013); Daruma Vídeo Produtora (2019); Canto (2012); Drias (2013); Faulkner (2014); Freitas (2011); Gil e EMBARQ Brasil (2014); Luiza (2024); Méndez, Ulloa e Mago/Cinematographer (2018); Observatório da Mobilidade (2016); Pacific Legal Foundation (2016); Peix (2015); Rawpixel Ltd (2018); Secom/UNB (2013); Van Lunsen (2017); Videologias (2012).
Elaboração:
Prosa (2025f).

Nesse contexto, no cotidiano das práticas pedagógicas, é preciso destacar que há limites na lógica da didatização dos materiais didáticos. Nelson Pretto (2011) argumenta sobre a relação entre didatização e empobrecimento cultural, apontando o risco do processo de transposição didática de outros produtos culturais incorrer em uma imposição de uma cultura sobre outra. O autor também fala sobre o problema dos materiais didáticos serem utilizados apenas como transmissores de informação, ou como um script alheio a ser apenas “aplicado”, mistificando, assim, o papel intelectual, criativo e de autoria do professor, o qual está implícito na interação com o material didático (Pretto, 2011). 

O material didático, pensado numa estrutura curricular de ensino, apresenta parte do conhecimento sobre determinado assunto ou tópico já sistematizado, de modo que ele possa ser apresentado, problematizado e reflexionado, visando ajudar os educandos na nova produção de conhecimento sobre determinado tema ou conteúdo da realidade do mundo. 

Como destaca Silveira et al. (2011, p. 79), a respeito do planejamento de materiais pedagógicos:

Um material educacional não deve ser planejado de forma isolada dos processos de ensino e de aprendizagem, mas ser projetado a partir de um objetivo de aprendizagem, que varia conforme o curso, a disciplina e o conteúdo abordado. O planejamento das atividades a distância, em conjunto com o planejamento dos materiais didáticos digitais, é fundamental para o alcance dos objetivos educacionais desejados.

Os materiais didáticos digitais (MDDs), como qualquer material didático, são voltados para uma intenção pedagógica específica em que o on-line (síncrono e assíncrono) se faz presente e necessário. Nesse caso, falamos da educação a distância, ainda que os MDDs possam ser usados em diferentes arranjos e situações de aprendizagem. 

Falkembach (2005) define os MDDs como um conjunto de recursos (atividades, desafios, jogos, simulações, entre outros) com função educativa e pensados para o on-line. Os materiais, além de serem multimidiáticos, são hipertextualizados, permitindo uma navegação em meio a informações e conhecimentos na web, exigindo planejamento antecipado pelo educador mediador.  

Nesse contexto, um dos grandes desafios para os profissionais de educação na produção e no uso de MDDs, como destaque, não é somente garantir que um recurso educacional cumpra sua finalidade pedagógica ao considerar os sujeitos e seus objetivos de aprendizagem, mas também compreender como planejar seus usos e possibilidades de curadoria – tópico explorado no capítulo 2.

Selecionar, planejar e produzir MDDs para serem utilizados na EPT exige considerar as potencialidades do seu uso (considerando o conteúdo que vimos no capítulo 1), mas também a realidade social e econômica dos estudantes da EPT, enquanto estudantes trabalhadores. 

Nesse sentido, essa característica impõe desafios para a produção e curadoria de materiais, os quais devem levar em consideração as características que orientam uma formação crítica e emancipatória, tanto para os próprios professores quanto para os estudantes. Ou seja, tanto os estudantes e professores como os próprios materiais são conjuntamente o centro da aprendizagem. Cabe pensarmos no papel da formação individual dos educadores na produção e curadoria de seus próprios materiais didáticos, mas também apostar na capacidade do trabalho coletivo dentro das nossas instituições educativas. 

Para refletir: materiais pedagógicos para a EaD em múltiplas linguagens

A utilização de materiais didáticos para a EaD na EPT envolve critérios de escolha pré-estabelecidos, que influenciam na seleção dos recursos, visando ao uso criativo e ao fortalecimento da prática pedagógica. A elaboração e o emprego desses materiais exigem a mediação do professor no uso de diferentes tecnologias e linguagens (texto, imagem e som), entendidas como meios e não como fins em si mesmos.

A produção de materiais didáticos pressupõe a integração de diferentes mídias (impresso, materiais digitais, vídeos, animações, radio, TV, podcasts, ambientes virtuais de aprendizagem, plataformas etc.), explorando sua convergência e articulação entre materiais físicos e digitais, de modo a favorecer a construção do conhecimento e a interação entre os sujeitos da aprendizagem (Zanetti, 2015).

Dentre os principais desafios para elaboração de materiais didáticos em múltiplas linguagens na EaD estão:

  • Adequação do material didático ao público-alvo e ao seu contexto de aprendizagem;
  • Adequação entre conteúdo e forma, em consonância com os princípios epistemológicos, metodológicos e políticos presentes no projeto pedagógico do curso que orienta os materiais didáticos;
  • Valorização da experiência do professor no uso dos materiais, aliada à articulação com equipes multidisciplinares na produção do material pedagógico;
  • Integração de diferentes mídias (texto, imagem, som e dispositivos), de modo que tenham coerência na organização do conhecimento e diversificação metodológica;
  • Uso critico das tecnologias, incluindo nos próprios materiais questionamento, reflexões, atividades de estudo, aprofundamento e registro dos conteúdos.

Para aprofundar sobre as diferentes mídias, suas características e usos, sugerimos a leitura do texto "Elaboração de materiais didáticos para educação a distância" (Zanetti, [2015]). 

Outras sugestões de referência:

"Os métodos de preparação de material para cursos on-line" (Palange, 2009);

"A educação a distância no contexto brasileiro e o modelo de produção de materiais didáticos: desafios à ação educativa" (Cunha; Reis, 2013).

Não deixe de registrar os pontos principais em seu Memorial e/ou siga as instruções de seu professor e/ou tutor.

Aprofundaremos o tema do processo de gestão da produção de MDDs no capítulo 4. Por ora, passemos, a seguir, a ver os MDDs em suas potencialidades e limites de produção como REAs na EaD para a EPT.