Planejamento e organização
Como vimos anteriormente, no contexto do planejamento escolar na EPT integral e integrada, a abordagem estratégica se fundamenta na definição política das aspirações pactuadas com a comunidade escolar. Diante disso, é importante reforçar dois aspectos dessa perspectiva, detalhando-a um pouco mais. O primeiro se refere ao fato de objetivos e metas guardarem entre si um grau de hierarquia: estes são os caminhos para atingir aqueles. Os objetivos têm abrangência mais geral, relativa aos níveis estadual (no caso da gestão em geral) ou local (no caso da gestão escolar); já as metas são diretas e se referem à ações práticas.
Vejamos, a seguir, o exemplo trabalhado por Clésia Maria Oliveira, Marcos César dos Santos e Osmar Siena (2013) de um modelo de gestão formulado pelo governo do estado de Rondônia entre 2013 e 2018. Nesse caso, o planejamento estratégico foi totalmente baseado na concepção politécnica de EPT:
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Título: Recorte de modelo de gestão para a EPT integral do estado de Rondônia, referente ao período 2013-2018
Fonte: Oliveira, Santos e Siena (2013).
Elaboração: Prosa (2025a).
O infográfico evidencia a natureza desses elementos no planejamento estratégico. Neles, já é possível conter alguma indicação de prazos e diretrizes numéricas, mas o mais importante é que sejam definidos a partir de um diagnóstico da realidade que, no caso da gestão escolar, será delimitada à dimensão local ou institucional.
O segundo aspecto do planejamento a ser reforçado é que ele não se encerra em si mesmo. Definidos os quatro níveis de sua elaboração , o critério fundamental para acompanhar a execução é a intervenção das ações na própria realidade, ou seja, o impacto que geram em termos de retorno para a sociedade e para a mudança da dinâmica social, política e econômica da região. Para isso, o foco é sempre a questão do trabalho, como chama atenção Pistrak (2018, p. 68):
A dificuldade com a relação trabalho e ciência só pode aparecer na situação do ensino isolar-se da educação. Nossa escola atual deve acabar com essa separação. O trabalho é parte da relação da escola com a atualidade, e nesta base o trabalho educativo e o de ensino desenvolvem-se como um todo único, inseparável. A questão fundamental da escola não é a relação mecânica entre o trabalho e a ciência (ou como se pensa mais dissimuladamente, entre trabalho e ensino), mas tornar ambos, partes orgânicas da escola, isto é, da vida social [...].
Para que esses princípios sejam colocados em prática, a escola precisa partir da mobilização da comunidade, momento em que ideias são postas em evidência, acordos são estabelecidos e regras são negociadas, construindo sínteses que se expressam no planejamento estratégico. Denominamos essas ações de organização da gestão integral e as dividimos em três momentos principais.
1° momento: mobilização. Trata-se da divulgação dos eventos em que a discussão ocorrerá. Normalmente sob a forma de plenárias, esses eventos têm data, horário e local bem definidos e contam com ampla participação. A articulação com as lideranças regionais é fundamental, pois facilita o diálogo e prevê possíveis demandas que poderão ser apresentadas. É importante, para a mobilização, acionar as mais diferentes ferramentas comunicacionais: cartazes, redes sociais, sistemas de som etc. Deve-se, também, estabelecer prioridades entre os públicos convidados, colocando em primeiro lugar os funcionários da escola e os estudantes e suas famílias. O ideal é definir uma equipe que estará responsável por essas atividades e trabalhará além do simples processo de informar.
2° momento: oficinas. É neste momento que, efetivamente, mapeiam-se as demandas da comunidade. Há inúmeras metodologias para , mas o mais importante é que ocorram de maneira coletiva e oportunizem que todos tenham direito à voz. Muitas vezes, as pessoas que não têm experiência na atuação em organizações populares se sentem inibidos ou constrangidos em falar em público. Nesse sentido, é ideal que se dividam em pequenos grupos de trabalho que proporcionem maior acolhimento e os deixem mais à vontade. A partir desses próprios grupos, pode-se dividir tarefas entre os presentes, pensando em uma gestão mais horizontal das atividades.
No processo de organização, na verdade, as propostas e necessidades da comunidade são sistematizadas. A sistematização é
[...] um processo individual e coletivo de produção de conhecimento sobre e no interior de experiências ou práticas sociais concretas [...] A sistematização da qual falamos recupera o que esses sujeitos sabem sobre as experiências: sobre as intencionalidades, os acontecimentos, os procedimentos que as conformam. Recupera as interpretações que esses sujeitos constroem: as suas vozes, as muitas vozes que falam as experiências e que são capazes de construir um diálogo ressignificador, carregado de interpretações e de ações
A sistematização, na verdade, parte de uma realidade particular e busca situá-la em contextos mais amplos, definidos ao primeiro nível do planejamento estratégico. Transforma, assim, a experiência individual em objeto de reflexão coletivo, regional, nacional, mas isso só é possível de ser feito sem amarras de parâmetros externos ou interesses prévios pautando o espaço escolar.
3° momento: elaboração das sínteses. Após as oficinas, que podem inclusive ocorrer em mais de uma data, a depender do tamanho da comunidade e da quantidade de demandas, define-se uma equipe responsável por formular um documento que sintetize as principais ideias. Novamente, há que se lembrar das ferramentas que compõem o planejamento estratégico e não perder de vista a construção de metas, indicadores e formas objetivas de acompanhamento. Deve-se haver um momento de apresentação dessa síntese junto à comunidade, também em plenária, de modo a que se possam fazer emendas e alterações, já que a síntese foi elaborada pelo olhar específico da gestão. O resultado deste momento pode ou não estar expresso no PPP, mas não necessariamente se resume a ele. A seguir, conheça um pouco sobre o Projeto Burareiro, uma experiência de educação integral em Ariquemes (RO).
Título: Projeto Burareiro: a experiência de educação integral em Ariquemes (RO)
Fonte: Basílio (2014).
Elaboração: Prosa (2025b).
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