Direção e avaliação

A função ideológica do aparelho escolar nas sociedades industrialmente desenvolvidas envolve formar profissionais adaptados e dóceis às suas responsabilidades.

É desse pressuposto que parte Maurício Tragtenberg no artigo intitulado "A escola como organização complexa", escrito em 1978, mas ainda muito atual. O autor mostra como “a realização de tais objetivos pressupõe a existência de uma ‘burocracia pedagógica’ com objetivos definidos ante a sociedade global” (Tragtenberg, 1978, p. 16). A separação entre essa burocracia e as atividades de ensino, na verdade, reproduz a separação entre o operário e os meios de produção. A perspectiva integral da educação politécnica busca aproximar esses polos e desenvolver a direção escolar alicerçada em princípios verdadeiramente democráticos.

Nessa concepção, a direção escolar é responsável por colocar em prática as decisões coletivas que constam do planejamento, de modo a organizar, acompanhar e coordenar os processos que atenderão aos objetivos planejados. A direção, então, articula uma equipe gestora comprometida com os pactos firmados junto à comunidade e distribui tarefas que permitam conduzir o fluxo de ações. José Carlos Libâneo (2001) indica três grandes setores partícipes dessa articulação:

Título: Setores da Gestão Escolar
Fonte: Libâneo (2001).
Elaboração: Prosa (2025d).

Retomando as observações de Tragtenberg (1978), a grande missão do corpo diretivo é, na verdade, integrar todas essas dimensões, servindo como uma mola propulsora das atividades da escola. De um lado, na gestão escolar tradicional não há discussão pública das técnicas utilizadas: a disciplina se adapta a regulamentos inquestionáveis, é rígida e altamente formalista, além de advogar em favor de relações neutras, livres de visões de mundo e impessoais. A direção que corresponde à gestão integral, ao contrário, mobiliza os atores da democracia participativa, criando mecanismos que os permitam acompanhar o trabalho pedagógico e assumindo a norma como algo negociado e em constante movimento.

Outro aspecto que se deve levar em conta quando se coteja a gestão integral com a gestão tradicional/tecnicista é a relação com o currículo. Como vimos no capítulo 3, para a EPT integral e integrada, o projeto de profissionalização não se encerra nele mesmo. Ao contrário: é um meio para a inserção crítica do trabalhador no mundo, além de ser dotado de forte natureza científica, analítica e concreta.

A direção burocrática enxerga o currículo como uma lista de saberes práticos; pelo emprego de técnicas que prezam pela eficiência, esses saberes tornam-se um check-list, de modo que, quanto mais “OKs” um estudante colecionar em sua lista de competências, mais bem avaliado e digno de sucesso ele é. Nessa concepção, os critérios de avaliação são definidos de fora, em geral por organismos e parâmetros internacionais, que reproduzem o sistema de divisão do trabalho e não questionam fatores sociais, como a origem de classe dos estudantes.

Isso nos leva a analisar o último conhecimento específico da gestão da EPT integral e integrada: a avaliação. Lembremos que integrar significa, em linhas gerais, vincular os aspectos socioculturais de uma dada comunidade com o ensino-aprendizagem. Para verificar em que medida isso tem ocorrido, a direção aciona expedientes de avaliação, mas, antes, precisa definir um estatuto teórico-epistemológico para essas ações. Nos marcos da educação politécnica, a avaliação é a

forma de identificar os avanços e retrocessos do currículo de modo geral, bem como verificar se as atividades dos laboratórios socioculturais estão contribuindo para a compreensão dos conteúdos regulares, o que torna necessário a criação de instrumentos que possam avaliar as várias dimensões do conhecimento, e não somente os aspectos cognitivos

(Patrícia, 2013, p. 93).

Podemos elencar como principais dimensões do processo avaliativo em EPT as seguintes: cognitiva, social, psicomotora, política e laboral-econômica. Cada ação pedagógica, na EPT integral, articula algumas ou todas essas dimensões, em maior ou em menor grau. Tendo o planejamento estratégico como referência e com participação ativa do setor pedagógico e dos docentes, a direção escolar deve ser capaz de identificar os principais aspectos presentes na aprendizagem dos estudantes.

Como forma de ilustração, vamos agora revisitar o exemplo trabalhado no capítulo 3, referente a um curso de Ensino Médio Integrado (EMI) localizado em uma hipotética região na qual a atividade econômica predominante é a cultura do café. Naquela oportunidade, elencamos seis conhecimentos a serem trabalhados em torno do tema e os sistematizamos da seguinte forma:

card do curso

Título: Exemplo de EMI em escola técnica com foco no café
Fonte: Prosa (2025e).

Em uma atividade como essa, a equipe diretiva, em diálogo com corpos docente e discente, identificará as dimensões presentes em cada uma das ações pedagógicas. Deve, contudo, fazer isso tendo como base os objetivos definidos no planejamento, já que eles são a ponte entre a intenção e a ação, entre a teoria e a prática. Vale salientar que tal atividade funciona na perspectiva processual, podendo ocupar boa parte do período letivo. Ela mesma deve ser objeto de um pequeno planejamento, com ações e objetivos de aprendizagem explicitados. A dinâmica da EPT integral é composta pela combinação de diversas atividades como essa, ao longo, por exemplo, de uma série.

O que se busca com uma atividade assim construída? Quais os vínculos com o planejamento estratégico da escola e com o projeto de profissionalização dos estudantes? Quais das cinco dimensões do processo avaliativo são priorizadas? É com base na resposta a essas perguntas que se selecionam critérios de avaliação e instrumentos práticos: prova escrita, trabalho em grupo, discussão coletiva, produção audiovisual, intervenções na comunidade, pequenos projetos de pesquisa, autoavaliação etc.

A grande marca da avaliação na perspectiva integral é justamente ser capaz de acompanhar o processo de aprendizagem individual e, ao mesmo tempo, produzir um diagnóstico do desenvolvimento das tarefas escolares/institucionais. Não há dicotomia entre esses dois campos, como defende o modelo burocrático da gestão tradicional.

Em resumo, assumindo a avaliação como responsabilidade da direção escolar, podemos fazer uma comparação com as principais características desse conhecimento específico.

Título: Atividades da direção da escola de EPT em prisma comparativo: gestão tradicional (tecnicista) e gestão integral (politécnica)
Fonte: Prosa (2025f).