Planejamento estratégico da gestão integral
A transição social discutida anteriormente pressupõe uma estratégia de transformação. A planificação escolar exige, portanto, um tipo de planejamento que tem objetivo estratégico, ou seja, um lugar no qual se pretenda chegar. Não é demais lembrar o célebre trecho de (1991, p. 29):
O planejamento é um cálculo e preside a ação para criar o futuro com imaginação a partir das possibilidades que sejamos capazes de descobrir. Constitui-se numa aposta estratégica, baseada no pensamento estratégico.
O vínculo com a perspectiva de uma gestão social do processo escolar leva o planejamento estratégico a definir metas que estejam pautadas no interesse público. Não basta apresentar os objetivos de curto, médio e longo prazo que compõem o planejamento, mas, é necessário encadeá-los de forma a atender aos grandes objetivos da comunidade escolar.
O fundamento dessa articulação é a estreita relação entre a gestão organizacional e o trabalho pedagógico, assumidos como faces da mesma moeda. O PPP pode ser o instrumento base dessa complexidade, buscando superar uma concepção meramente institucional ou burocrática de projeto pedagógico. Vejamos um caminho possível, considerando o PPP como um guia para a ação:
Trata-se sempre de um processo participativo de democratização da escola. Surge na prática, como resultado do compromisso de um grupo que, refletindo sobre a própria prática, se mobiliza para uma ação conjunta a partir de uma solidariedade de preocupações que se materializam em ações comuns num movimento prática-teoria-prática
Alicerçado nessa perspectiva, o trabalho pedagógico da EPT – integral e integrada – se organiza a partir de princípios básicos:
- relação orgânica entre áreas do conhecimento;
- consistente apoio profissional, envolvendo equipe multidisciplinar composta inclusive por assistentes sociais e profissionais da saúde;
- tempos escolares adequados à realidade dos estudantes trabalhadores;
- política de alimentação escolar;
- consideração do profissional da educação como educador e pesquisador permanente, ligado às demandas locais;
- profundo conhecimento e permanente discussão sobre o currículo integrado de natureza politécnica.
Todos esses elementos orientam a sequência de ações levadas em conta para se construir o planejamento estratégico. Basicamente, essa construção pode se dar em quatro níveis, segundo a adaptação que propomos do modelo de (1992).
Título: Níveis de Planejamento Estratégico
Fonte: Prosa (2025h); Schüler (2023); Ministério da Educação (2022).
1° Nível: definição da visão institucional. A literatura clássica em Administração a concebe como a imagem com que uma determinada organização se projeta no futuro. Na gestão integral da escola de EPT, essa imagem tem visão ampliada, de totalidade, que leva em conta os princípios indicados no parágrafo anterior. Neste momento do planejamento, elabora-se uma agenda da mudança estratégica calcada na transformação social e em desafios com a maior abrangência possível, de preferência nacional. Aqui também se estabelece a missão, que é a primeira diretriz estratégica e o que se espera em geral da escola, e os valores, que são oriundos de uma análise da estrutura social em que a escola está imersa. Vale lembrar que o processo de transição em relação ao qual a escola se situa varia muito com o momento histórico (condições econômicas, correlações de forças, disponibilidade de recursos etc.).
2° Nível: desenvolvimento da estratégia. A abrangência do 2° nível é mais restrita que a do primeiro, porque remete ao regional. A partir de uma análise geográfica, econômica, social e política do estado, da macrorregião e/ou do município, os grandes objetivos estratégicos são definidos, sempre como desdobramentos da visão definida no 1° nível. Algumas perguntas podem ser elaboradas para desenvolver a estratégia: quais as principais atividades econômicas da região ou os chamados arranjos produtivos, sociais e culturais locais? Quais as demandas profissionais prioritárias? Em que consistem as principais necessidades educacionais e como se distribuem em termos de classe social? Quais os gargalos tecnológicos e produtivos? Quais as organizações populares atuam na região, de que forma se estruturam e quais são suas plataformas de luta? Vale lembrar que, pelo princípio da auto-organização, é fundamental que se escolham metodologias coletivas para a obtenção das respostas a essas perguntas: oficinas, audiências, plenárias etc.
3° Nível: tradução da estratégia. Todas as conclusões obtidas no nível anterior são divididas em grandes temas estratégicos. Define-se indicadores e metas para cada um, indicando o tempo de execução (curto, médio ou longo prazo) e as formas de acompanhamento. Constrói-se, assim, uma matriz de indicadores, que estarão sempre subordinados aos objetivos de longo alcance e ao impacto em termos de transformação social. É o que a literatura denomina mapeamento estratégico.
4° Nível: desenvolvimento do plano estratégico. Esse é o nível mais concreto do processo. É aqui que se estabelecem as principais iniciativas, como financiamento, responsabilidade pelas tarefas, equipes temáticas, ameaças (riscos) para cada elemento e sistema de avaliação das metas e da aprendizagem. Esses itens são a materialização dos indicadores definidos anteriormente, a partir dos quais será possível avaliar erros e acertos, elaborar críticas e autocríticas e definir regras gerais de funcionamento do ambiente e das relações escolares. Este plano não é estático, mas está sob constante acompanhamento da comunidade e deve ser encarado como a pactuação dos interesses coletivos, nunca como algo individual.
É possível detalhar cada um dos níveis anteriores por meio de ferramentas, como unidades de medida, comportamentos esperados, consequências de erros e acertos ou ênfases a depender de cada situação. Há, inclusive, softwares e pacotes computacionais que facilitam a organização desses procedimentos, apesar de sempre partirem de pressupostos teóricos e políticos que devem ser conhecidos de seus usuários.
Nosso objetivo, porém, não é apresentar tal nível de detalhamento, mas auxiliar o leitor a compreender o planejamento estratégico como uma perspectiva, ou seja, como a forma de administração mais próxima daquilo que conceituamos como educação politécnica. Para Eliza Bartolozzi Ferreira (2013), o planejamento é muito mais do que uma técnica: é um processo que revela relações de poder e a hegemonia num dado momento histórico. Não há fórmulas prontas para isso, mas sim concepções educativas que orientam a formação dos estudantes.
Vale destacar, por fim, que no PPP se cristalizam as grandes conclusões do planejamento estratégico, mas este não se resume àquele. A estratégia, ela própria, é dinâmica e está em constante movimento, o que exige da equipe gestora criatividade e, principalmente, comprometimento com uma visão de longo alcance para os objetivos da escola.
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