Autoavaliação: a selfie institucional

O avanço tecnológico, e, consequentemente, a existência de celulares com recursos mais elaborados que dispõem de mais pixels, fizeram com que tirar uma selfie se tornasse algo cotidiano, banal e, até mesmo, quase obrigatório. Da mesma forma, tornou-se comum não gostarmos da maioria delas, levando-nos a fazer uso de diferentes filtros, maquiando a nós mesmos.

Se a selfie é uma fotografia de si mesmo, um autorretrato, podemos fazer uma analogia com a autoavaliação institucional: estamos cuidando da "selfie" de nossas instituições com o mesmo zelo que dedicamos às nossas próprias imagens? Até que ponto estamos retirando os filtros e olhando de maneira objetiva e qualificada para os processos institucionais dos quais somos autores e participantes?

Essa é a reflexão a se fazer agora: uma selfie sem filtros.

Selfie das instituições

Título: Selfie das instituições
Fonte: Prosa (2025b).

A autoavaliação institucional e a Política Educacional Brasileira

A Política Educacional Brasileira possui suas ações de avaliação alicerçadas nas diretrizes definidas nos documentos do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES) e na Política Nacional de Avaliação e Exames da Educação Básica. Autores como Nieysila Borges e Deuzilene Salazar (2021, p. 353) afirmam que nenhum desses documentos “comporta as especificidades da Educação Profissional e Tecnológica (EPT), no tocante à avaliação dos processos formativos e resultados da aprendizagem”. Completamos a afirmação das autoras apontando que essa incipiência também se estende à avaliação da EaD na EPT, sendo fundamental a criação de indicadores avaliativos que deem conta da análise crítica dos processos pedagógicos a fim de que a autoavaliação cumpra com seus objetivos e se materialize.

Essa materialização, ainda, deve ter como características suas dimensões formativa e emancipatória, servindo de instrumento diagnóstico da realidade com vistas às mudanças necessárias, como nos aponta José Dias Sobrinho na epígrafe que abre este capítulo, tendo a avaliação como projeto.

A autoavaliação como processo formativo é definida por Dias Sobrinho (2009) como um processo fundamental para a melhoria dos processos institucionais, em razão de ser tempo-espaço de discussão das relações da instituição, extrapolando a avaliação apenas como instrumento de controle e de regulação. O autor, ainda, entende a autoavaliação como uma reflexão coletiva, em que a comunidade escolar e acadêmica tem a possibilidade de discutir sobre as potencialidades e as fragilidades institucionais. Os sujeitos da comunidade, que são os docentes, os discentes e os técnicos-administrativos, são aqueles que de fato vivenciam o dia a dia da instituição, tendo mais propriedade para pensá-la e repensá-la por meio da compreensão de suas complexas dinâmicas institucionais.

Ao reconhecer a autoavaliação como um espaço coletivo e participativo, compreendemos que esse processo pode ir além da simples análise institucional, tornando-se um instrumento de transformação. É nesse ponto que se insere a dimensão emancipatória da autoavaliação, conceituação apoiada, neste capítulo, no estudo de Ana Maria Saul (2015). A autora alinha esse processo às perspectivas de emancipação e de decisão democrática, possibilitando a transformação dos processos pedagógicos e de gestão por meio da análise crítica da realidade institucional por seus próprios sujeitos. Para isso, a autoavaliação deve ser tomada como um instrumento intrínseco à cultura institucional, alinhada a uma perspectiva de gestão participativa, ativa e democrática.

Tal como o posicionamento de Dias Sobrinho (2008; 2009), Saul (2015) afirma que a avaliação não pode ser um instrumento burocrático voltado somente às exigências externas da instituição, mas deve constituir-se, passo a passo, como um processo de discussão e de debate sobre a realidade institucional com vistas à melhoria de seus processos.

À medida em que a autoavaliação envolve os diferentes sujeitos da comunidade escolar e acadêmica, é promovido o empoderamento deles e, consequentemente, o fortalecimento institucional. Com isso, busca-se a potencialização do processo educacional com vistas à qualidade social da educação, já que a avaliação como processo formativo constitui sujeitos críticos, participativos, reflexivos, com autonomia intelectual e decisória, assegurando uma formação humana integral – princípio inegociável da EPT. Não afirmamos que é um processo fácil ou imediato, mas esses são aspectos que devem estar alinhados ao projeto de instituição que se deseja e que corresponde aos documentos oficiais. Gradativamente, as ações cotidianas demonstram a necessidade de direcionamento voltado ao envolvimento e ao engajamento da comunidade na participação coletiva e democrática. Como afirmam Mara Regina Lemes De Sordi et al. (2023, p. 86):

Somos desafiados a pensar formas potentes de fortalecimento dos coletivos escolares para que assumam posturas insurgentes em defesa de uma qualidade socialmente referenciada, a partir da realidade local e das necessidades do entorno social, que ultrapassem a visão imperialista.

Esse é o desafio posto.