O desafio de promover a interatividade na educação a distância

Uma especificidade importante da educação a distância é a flexibilidade dos espaços e tempos. Este fator implica em variações na distribuição das atividades de aprendizagem previstas, das avaliações, dos momentos presenciais e à distância, das interações síncronas e assíncronas, entre outras, e em uma mudança na organização dos componentes curriculares. Em sua própria experiência neste curso, é possível que você já tenha identificado uma característica da organização dos cursos EaD: em vez de todas as disciplinas acontecerem em paralelo, ao longo do semestre ou do ano letivo, os cursos ofertados a distância costumam organizar os componentes curriculares em períodos de dois a quatro meses, geralmente em blocos de disciplinas. Na prática, o cursista dedica-se a algumas unidades de ensino por vez.

Nesse cenário, se não há um planejamento adequado em termos de mediação pedagógica, o tempo pode ser mal aproveitado e, se não estivermos atentos, podemos ser pegos de surpresa pela evasão. Quando a equipe de docência e de tutoria não interage com os estudantes com frequência, seguindo uma organização prévia, pode ser difícil acompanhar o processo de desenvolvimento da turma e a assiduidade por parte dos educandos ao ambiente virtual de aprendizagem (AVA). 

A chave para encarar esse desafio é planejar como será a mediação pedagógica no desenvolvimento das atividades síncronas e assíncronas que caracterizam este contexto. É preciso que tanto a equipe do curso quanto os estudantes permaneçam ativos e interativos do início ao fim através da constante interatividade. Na sequência, entenderemos o que significa este conceito e veremos quais estratégias e recursos podem ser utilizados para promovê-lo nos AVAs.

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Título: Planejamento em rede: construindo a mediação da aprendizagem no ambiente virtual
Elaboração: Prosa (2025a).

 

Conceito de interatividade

Para compreender a teoria e a prática da interatividade e aplicá-las à nossa realidade da educação a distância na Educação Profissional e Tecnológica (EPT), será preciso começar lançando mão de alguns conceitos. Inicialmente, vamos entender um pouco mais o que significa a interatividade.

Marco Silva (2021) utiliza a alegoria do parangolé para nos ajudar a brincar com a ideia de interatividade. O parangolé foi uma criação do artista brasileiro Hélio Oiticica na década de 1960. Trata-se de uma forma de expressão artística que foi feita para ser não apenas observada, mas também experimentada. Uma composição de tecido – capas, bandeiras e faixas com cores fortes e vibrantes – é combinada a uma dança ou performance, e a intenção é que o observador interaja com a obra, não sendo um mero espectador, mas também um cocriador.

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Título: Do parangolé à roda - experiências vivas de interatividade
Fonte: Cequinel (2016); Otubo (2009); Parangolé (2021); Lantec Ufsc (2018a; 2018b).
Elaboração: Prosa (2025b).

Na Pedagogia do parangolé, proposta por Silva (2021), o aprendiz é convidado a criar sentidos com os seus colegas e com o professor. A interatividade supõe a disponibilização de múltiplas dobras e redes para a criação do conhecimento, assim como o parangolé. Para o pesquisador, a interatividade ganha significado no contexto da cibercultura.

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Título: Interatividade na cibercultura segundo Marco Silva
Fonte: Veras (2010).
Elaboração: Prosa (2025c).

Na obra Sala de Aula Interativa: Educação, comunicação, mídia clássica, internet, tecnologias digitais, arte, mercado, sociedade, cidadania, de 2014, Marco Silva desenvolveu o conceito de interatividade, cunhado a partir da compreensão de que, na sala de aula interativa, a emissão e a recepção de informações não explicam totalmente o processo comunicacional que resulta na construção do conhecimento.

O texto e a entrevista a seguir apresentam algumas das ideias presentes no livro de Silva e explicam um pouco mais sobre a Pedagogia do parangolé:

Como podemos perceber a partir da leitura dos materiais e da reflexão sobre nossa própria experiência, a sala de aula baseada somente no audiovisual está obsoleta. Os estudantes estão cada vez mais desinteressados das aulas centradas na distribuição de informações, na memorização e na repetição. Expor conceitos, mesmo adicionando recursos de áudio e vídeo, não é suficiente para que ocorra o engajamento dos estudantes no processo de aprendizagem. 

Após essas leituras, reflita sobre as questões apresentadas a seguir; faça registros em seu Memorial e/ou siga as instruções de seu professor e/ou tutor.

  1. Por que a simples distribuição de informações, memorização e repetição produz desinteresse nos estudantes?
  2. Dado que as exposições de conceitos, mesmo adicionando recursos de áudio e vídeo, não são suficientes para o engajamento dos estudantes, como os docentes poderiam diversificar o processo comunicacional com os estudantes?

Nesse contexto, os professores são convidados a tomarem a noção de interatividade em sua complexidade e a modificarem seus métodos e estratégias – caso ainda tenham uma concepção de ensino-aprendizagem baseada apenas na apresentação e na recepção de conteúdos. A mudança mais significativa de uma aula instrucionista para uma experiência de aprendizagem colaborativa está relacionada aos papéis assumidos por alunos e professores, que produzem, conjuntamente, conhecimentos no processo formativo. Tal mudança requer uma reconfiguração da estrutura hierárquica e das relações de poder.