A politecnia como alternativa à gestão escolar neoliberal


No primeiro capítulo, vimos que o uso de termos para designar processos administrativos e as concepções educativas
 subjacentes a eles são resultados de lutas e embates sociais. Por exemplo, consolidaram-se visões sobre a escola atreladas à conservação dos princípios gerais do modo de produção capitalista. De fato, como vimos, as estruturas sociais, acionam aparelhos e instituições específicas para reproduzi-las. Para pensar outros tipos de instituições, é necessário projetar formas alternativas de organização da sociedade, processo que impõe, inevitavelmente, disputas de perspectivas. Por exemplo, a partir disso, originou-se a ideia de formação humana integral de natureza politécnica, para tratar de um modelo educacional que articula trabalho, ciência e cultura.

Título: Bem-estar infantil na Escola Politécnica
Fonte: Shmidshtein (1963).

Essa concepção remonta justamente a intensos processos de lutas sociais e enfrentamento da exploração capitalista. Em linhas gerais, podemos identificar em três grandes momentos históricos os elementos de um programa educativo baseado na politecnia: 1) décadas de 1860 e 1870, incluindo a Comuna de Paris (1971) e as elaborações de Karl Marx  relativas àquele período; 2) a Revolução Russa (1917); e 3) as lutas antifascistas, com destaque especial para as elaborações do italiano Antonio Gramsci. Princípios expostos em todos esses momentos foram adotados como pontos de partida para posteriores amadurecimentos, no seio do pensamento progressista em diversos outros países. Um bom resumo é trazido pelo próprio Marx em um texto do primeiro período citado:

Por educação entendemos três coisas:
Primeiramente: Educação mental.
Segundo: Educação física, tal como é dada em escolas de ginástica e pelo exercício militar.
Terceiro: Instrução tecnológica, que transmite os princípios gerais de todos os processos de produção e, simultaneamente, inicia a criança e o jovem no uso prático e manejo dos instrumentos elementares de todos os ofícios.
Um curso gradual e progressivo de instrução mental, gímnica e tecnológica deve corresponder à classificação dos trabalhadores jovens

(Marx, 2008 [1866]).

A perspectiva que se baseia nessa tríade deve comportar formas particulares de administrar seus problemas, seus objetivos e seus recursos, questões que foram postas em prática ao longo da história pelas mais diversas experiências e no seio das respectivas disputas. Um dos responsáveis por essa tarefa na Rússia revolucionária, de 1917, é Moisey Pistrak, que disse que não existia manual já acabado para a organização das funções escolares e que a própria construção de uma nova sociedade indicaria os caminhos necessários.

É possível afirmar que há um elemento comum às experiências de administração das escolas politécnicas já desenvolvidas nesses mais de cem anos: a participação popular com auto-organização coletiva. Este é, de acordo com Pistrak (2018 [1925]), o princípio radicalmente democrático que define os rumos de uma escola desvinculada do grande poder econômico e vinculada, prioritariamente, aos interesses dos trabalhadores. Recomendamos que você assista ao vídeo “A Escola do Trabalho de Moisey Pistrak e o Politecnismo de Viktor Shulgin.”

Título: Escola dos trabalhadores Fonte: Prosa (2025m).

Título: Escola dos trabalhadores
Fonte: Prosa (2025m).

O tema é fundamental porque nele deságuam diversos outros desafios da construção do espaço escolar: organização democrática (e não burocrática) do trabalho, laicidade, liberdade de opinião, disciplina, princípios sociais e coletivos subordinando o individualismo, convivência entre grupos sociais diversos etc.

A auto-organização coletiva da escola não significa a ausência de um órgão diretivo e coordenador das atividades: ao contrário, como em qualquer instituição, a divisão de funções é essencial para que seja possível aferir o cumprimento dos objetivos e, principalmente, para que haja formas de estímulo dos interesses das crianças, jovens e aprendizes em geral. Ocorre que, na escola politécnica, tais interesses são ampliados com o intuito de que a criatividade individual cumpra uma função para a sociedade, ao mesmo tempo em que o estudante aprende uma profissão e os princípios básicos da ciência e da cultura geral (Pistrak, 2018 [1925]).

Eis o cerne da ideia de politecnia aplicada à administração escolar que vamos destrinchar no próximo capítulo. Daí, advêm formas organizativas como, a exemplo, a assembleia, o conselho escolar, o grêmio estudantil, a direção e a coordenação pedagógica, todas subordinadas aos princípios gerais da educação integral e ao conteúdo de classe vinculado ao polo do trabalho na contradição capitalista fundamental.

Para Pistrak (2018 [1925]), os educandos devem participar ativamente desses órgãos, mas

“para trabalhar organicamente na construção da escola, para participar em todas as questões pedagógicas da escola (e não apenas domésticas)”

(p. 250).

É interessante perceber como está em jogo uma concepção que vincula dialeticamente o individual ao coletivo, superando a meritocracia e a busca pela eficiência mercadológica que caracterizam a gestão neoliberal.

Meritocracia é um sistema em que as recompensas, sejam elas sociais ou profissionais, são atribuídas com base no mérito individual. Ou seja, no desempenho e resultados apresentados pelas pessoas individualmente. Seria o governo do mérito. Contudo, o sucesso nem sempre é consequência direta de ações individuais e nem todos partem do mesmo ponto. Não se podem ignorar as desigualdades estruturais e mascarar privilégios como forma de perpetuar as injustiças sociais e justificar a exclusão dos menos favorecidos. O sistema meritocrático favorece quem já possui recursos, apaga a dimensão coletiva e funciona como dominação simbólica.