Capítulo 1

Avaliação institucional: histórico, objetivos e planejamento

 Avaliação Institucional: histórico, objetivos e planejamento

A qualidade social da escola pública é processual e não cabe em pacotes curriculares predeterminados, como alguns defendem. Tampouco em avaliações externas padronizadoras de resultados e de expectativas. Somos herdeiros de um processo de fortalecimento da escola pública como um sujeito social único e criativo, que se recria a cada momento.

(Sônia Kruppa et al., Percursos da Avaliação Institucional)

Neste primeiro capítulo, refletiremos sobre a importância da Avaliação Institucional como um instrumento essencial para o aprimoramento contínuo dos processos pedagógicos e de gestão das instituições de ensino, especificamente nas instituições de EPT. Mais do que uma prática pontual, a Avaliação Institucional deve ser vista como uma ferramenta que, quando bem estruturada, contribui para a oferta de uma educação com qualidade social, refletida na melhoria das práticas de ensino e de aprendizagem, e para o melhoramento direto da formação dos estudantes. 

Para aprofundar essa reflexão, discutiremos a diferença entre a Avaliação Institucional externa e interna partindo de um breve histórico da Avaliação Institucional no Brasil, no qual veremos a passagem da ferramenta de um aspecto meramente regulatório e quantitativo para um processo de autoconhecimento institucional em uma perspectiva formativa e qualitativa. 

Destacaremos, ainda, a importância de um processo avaliativo coletivo e formativo, no qual todos os membros da comunidade acadêmica – docentes, discentes, gestores, servidores e sociedade – participem ativamente na construção de uma cultura avaliativa institucional. E, por fim, exploraremos de maneira abrangente as etapas da Avaliação Institucional interna, enfatizando como esse processo contribui para a oferta de uma educação de qualidade social compatível com os princípios da EPT.

É bem possível que você já tenha visto em sites institucionais, nas redes sociais ou em murais de sua instituição algumas das figuras a seguir:

Selo de Avaliação do MEC

Título: Selo de Avaliação do MEC
Fonte: Instituto Federal do Sul de Minas Gerais (2018).

Selo de Avaliação do MEC

Título: Selo de Avaliação do MEC
Fonte: Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais (2019).

Em alguma das vezes em que você viu tais selos, você se perguntou o que, de fato, esse registro numérico, essa nota, representa para a sua ou para outras instituições, para além de uma classificação ou de um ranqueamento? O que essa nota demonstra sobre a realidade do trabalho educacional desenvolvido por você e por seus colegas? O que realmente significa essa nota? Qual a sua contribuição, enquanto professor, gestor ou servidor, para o alcance desse resultado? Será que você está satisfeito com o registro final dessa avaliação? O que ela indica? Até que ponto essa nota motiva você a continuar com sua prática profissional ou contribui para alcançar novos patamares em sua instituição? Como sua instituição discute, socializa, reflete, problematiza e age a partir das notas obtidas nessas avaliações externas? O que realmente elas traduzem da realidade institucional da qual você é sujeito social?

 

Registre essas reflexões em seu Memorial e/ou siga as orientações de seu tutor!

A partir dessas indagações, refletiremos sobre como essas notas geram ou deveriam gerar mudanças positivas em sua instituição.

Primeiramente, é importante entender que essa atribuição numérica decorre de um conjunto de indicadores que compõem o processo avaliativo das instituições educacionais, como resultado da aplicação de avaliações e de testes padronizados que desconsideram as realidades sociais, econômicas, geográficas e culturais de cada instituição.

Seleção Justa

Título: Seleção Justa
Fonte: Prosa (2025a).

E, ao falar em avaliação, o que vem à sua mente? 

Avaliar é uma ação presente em nosso cotidiano e nos possibilita tomar decisões, sejam elas simples ou complexas. Na docência, avaliamos o processo de aprendizagem dos estudantes e, a partir dos resultados, realinhamos nossa prática pedagógica para melhorar os desempenhos. Enquanto profissionais da educação, avaliamos a relação pedagógica entre professores e estudantes e temos a possibilidade de ajustar encaminhamentos e posicionamentos. Como gestores, avaliamos resultados para embasar novas decisões. 

Nos três exemplos, a avaliação orienta a tomada de decisões com o objetivo de aprimorar o fazer profissional. A avaliação pode ser compreendida como um processo essencial para a tomada de decisões, sendo, dessa forma, uma ação inerente ao trabalho educacional. E é sob essa perspectiva que a avaliação institucional pode ser pensada enquanto instrumento necessário a novas escolhas e a redirecionamentos dos processos pedagógicos e de gestão das instituições de educação. Marcos Masetto (2004) compreende a avaliação institucional como um processo histórico, pois as decisões tomadas no presente visam à construção de um futuro melhor para os processos pedagógicos e de gestão das instituições. 

A avaliação institucional possui duas modalidades: avaliação externa (larga escala) e avaliação interna (autoavaliação), que guardam especificidades entre si, mas que se inter-relacionam e se complementam – ou assim deveriam.

A avaliação externa é conduzida por órgãos reguladores e avaliadores, como o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), e tem o objetivo de garantir transparência e prestação de contas à sociedade sobre a qualidade da Educação Básica e da Educação Superior. A primeira é regida pela Política Nacional de Avaliação e Exames da Educação Básica e regulamentada pelo Decreto nº 9.432, de 29 de junho de 2018 (Brasil, 2018), que estabelece a integração do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (ENCCEJA) e o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). A segunda é regida pela Lei nº 10.861, de 14 de abril de 2004 (Brasil, 2004), que instituiu o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES). Além disso, a avaliação externa fornece elementos para a criação e reformulação de políticas públicas educacionais. Seu foco está na verificação do desempenho acadêmico e do cumprimento de padrões de qualidade e de requisitos normativos, funcionando como um mecanismo de controle e regulação do sistema educacional – o que frequentemente gera debates e questionamentos.

Por sua vez, a avaliação interna, também chamada de autoavaliação, é um processo realizado pela própria instituição de ensino, com o principal objetivo de promover a autorreflexão sobre seus processos e garantir a melhoria contínua da qualidade do ensino, da pesquisa e da extensão. Por meio da autoavaliação, a instituição consegue realizar uma análise crítica de suas fragilidades e potencialidades, o que contribui para a definição de prioridades e o desenvolvimento de estratégias de ação adequadas.

Esse processo também permite que a instituição se adapte de maneira mais rápida e eficiente às constantes mudanças sociais, econômicas e tecnológicas, assegurando que a formação oferecida esteja sempre alinhada às exigências e aos desafios contemporâneos. Além disso, a avaliação interna fortalece a autonomia da instituição, permitindo que ela seja mais proativa na identificação de áreas a serem aprimoradas, de modo a fortalecer o planejamento estratégico da instituição e a consolidar a cultura de qualidade e responsabilidade social no ambiente acadêmico, garantindo que a educação esteja em sintonia com as necessidades da sociedade.

Diferenças entre Avaliação Externa e Avaliação Interna

Título: Diferenças entre avaliação externa e avaliação interna
Fonte: Prosa (2025b).

Destacamos, aqui, historicamente a ausência de uma Política de Avaliação Institucional que atenda ao Ensino Médio Integrado e à Educação Profissional e Técnológica de Nível Médio (EPTNM), quadro que vem mudando recentemente.  A Política Nacional de Avaliação e Exame da Educação Básica não contempla “mecanismos específicos para avaliação na EPT, tanto do ponto de vista do processo de ensino-aprendizagem (desempenho acadêmico dos alunos) quanto das instituições de ensino que ofertam essa modalidade de ensino”, como bem apontam as professoras Nieysila Borges e Deuzilene Salazar (2021, p. 351). Essa situação de ausência de políticas de avaliação institucional é maximizada quando se trata da avaliação de cursos na EaD ofertados pela EPT, como veremos de maneira mais detalhada nos próximos capítulos. 

Cabe destacar que o Inep criou, em 2024, a Diretoria de Avaliação da Educação Profissional e Tecnológica (EPT), o que representa um grande avanço nesse cenário. Além disso, foi publicado recentemente o decreto nº 12.603, de 28 de agosto de 2025, que institui a Política Nacional de Educação Profissional e Tecnológica - PNEPT, regulamenta o art. 4º da Lei nº 14.645, de 2 de agosto de 2023, e institui o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Profissional e Tecnológica - SINAEPT.

Nos frequentes debates e polêmicas em torno das avaliações externas, verificamos que os questionamentos encontram respaldo na conotação atribuída a esse tipo de avaliação e na indagação sobre a maneira como os resultados obtidos por meio delas se materializam (ou não) na elaboração de políticas públicas e na melhoria das condições da Educação, seja ela básica ou superior.

Autores como Geisa Mendes et al. (2015) criticam as avaliações externas baseadas em testes padronizados, considerando o fato de que, ao lidarem apenas com dados quantitativos, tais avaliações promovem o ranqueamento e a competição entre as diferentes instituições de ensino. Assim, quando pautadas exclusivamente na produção de resultados, perdem seu real sentido como instrumento transformador da realidade educacional. 

A avaliação utilizada com o propósito de promover melhorias e fomentar uma transformação efetiva da realidade deve estar ancorada em uma reflexão diagnóstica crítica sobre o cenário educacional. Caso contrário, ela corre o risco de se tornar um mero mecanismo de regulação e de controle do Estado. Flávia Freire, Daniela Lima e Leila Cristina Borges (2021), ao discutirem e analisarem a avaliação institucional na Educação Superior brasileira e os instrumentos para a oferta de cursos a distância, apontam que esse uso da avaliação pelo Estado remete ao século XX e intenciona justificar as políticas oficiais do campo educacional, sendo utilizadas como “instrumentos da estrutura de poder” (Freire, Lima e Borges, 2021, p. 2). 

Já o professor e pesquisador Elton Luiz Nardi (2023) soma ao debate ao afirmar que esse tipo de avaliação está direcionado à regulação dos resultados e permeado por valores mercantilistas de padronização que primam pelos aspectos quantitativos assegurados por uma lógica neoliberal. Isso consiste, em suas palavras, em

um modo de regulação centrado em resultados traduzidos em desempenhos imediatos, com base nos quais os sistemas de ensino e as escolas são avaliados externamente, em conformidade com metas estabelecidas pelo centro de poder

(Nardi, 2023, p. 35).

É em contraposição a essa lógica neoliberal das avaliações externas que Mendes et al. (2015) sustentam a valorização dos processos de autoavaliação, os quais permitem que os sujeitos da comunidade educacional olhem para sua própria realidade, reflitam por meio da participação coletiva sob uma perspectiva crítico-dialógica e decidam sobre os caminhos de seus projetos educacionais. Dessa maneira, “a avaliação passa a cumprir outro papel, deixando de ser um fim em si mesma para se tornar um meio carregado de potencialidade pedagógica e política” (Mendes et al., 2015, p. 1.288), configurando-se como um instrumento de autonomia, de participação democrática e de promoção de um processo reflexivo dos sujeitos escolares e acadêmicos, que se tornam responsáveis pela gestão pedagógica, administrativa e comunitária.