capítulo 2

Abordagens da Psicologia da Aprendizagem
e da Educação na EaD e na EPT

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O enigma de Kaspar Hauser

Você conhece o filme O enigma de Kaspar Hauser? Já assistiu? Esse filme nos permite refletir sobre algumas teorias da Psicologia que definem como se constituem os processos de aprendizagem e o desenvolvimento humano. O filme foi lançado no ano de 1974 pelo renomado cineasta alemão Werner Herzog e trata da misteriosa história do protagonista que dá nome ao filme. Kaspar passou a maior parte de sua vida trancado num porão, com tratamento sub-humano, isolado do mundo, sem comunicação, interação e sem experiências de aprendizagem. Ao sair daquela realidade e se deparar com o mundo social, começou  uma  interessante jornada com novas situações em sua vida. Já adulto, Kaspar Hauser teve que aprender tudo: andar, falar, conviver, se comportar, sentir. Sem mais spoilers: assistir ao filme será uma experiência interessante!

E por que lembrar do Kaspar Hauser ao discutirmos, à luz da Psicologia, abordagens sobre o complexo e multifatorial ato de aprender? Podemos afirmar que o desenvolvimento e a aprendizagem são fenômenos interdependentes, resultantes de condições e contextos socioculturais do sujeito, do meio de que participa, das pessoas e dos pares com os quais convive, da linguagem que aprende e das experiências que o transformam e o fazem crescer cognitiva e emocionalmente.

Você deve ter notado que as teorias contempladas neste curso estão em consonância com as diretrizes e princípios da Educação Profissional e Tecnológica (EPT). Isso significa que essas teorias, de diferentes maneiras, trazem subsídios para uma EaD com qualidade, que visa a uma formação emancipatória. Do mesmo modo, o recorte que faremos dos fundamentos da psicologia da educação e da aprendizagem também segue trilhas de formação em que a interação social e a autonomia para aprender têm um lugar de destaque na prática pedagógica.     

card do curso

Título: Eixos principais dos campos epistemológicos que norteiam as teorias de aprendizagem na EaD
Fonte: Prosa (2025a).

Destes eixos derivam uma diversidade de abordagens e as tendências provenientes da Psicologia da Educação, algumas já contempladas aqui. Neste capítulo, seguiremos refletindo sobre elas, pois estudaremos sobre as abordagens da Psicologia da Aprendizagem e da Educação na EaD e na EPT, com atenção especial à aprendizagem de pessoas jovens e adultas.

No capítulo anterior, vimos que algumas correntes tradicionais sobre a aprendizagem pressupõem o indivíduo como ser que apreende seu meio por métodos educativos pautados em transmissão, repetição, estímulo-resposta. Estes princípios correspondem a teorias de cunho comportamentalista, associadas ao Behaviorismo

O comportamentalismo é uma das correntes precursoras de influências no ensino e tem como base a premissa de que o aprendizado é condicionado pelo meio, por ações externas ao sujeito que, ao se deparar com estímulos, repetições e respostas comandadas, se tornaria apto a “aprender”. 

Agora, podemos nos questionar: segundo a teoria behaviorista, como seria o cenário de aprendizagem em um curso a distância?

Ao tomar por base o comportamentalismo, o desenho pedagógico de um curso EaD se institui pela configuração de um ambiente virtual mais linear, tradicional e fechado, em que recursos que garantam processos de interação e comunicação sejam algo quase que inexistentes. Os conteúdos programáticos assumem a função de transmitir o conhecimento e os exercícios se resumem em treinamentos repetitivos para a absorção dos assuntos tratados 

(Anjos, A. e Anjos, R., 2018, p. 63).

Nessa tendência, os estudantes aprendem por associação e fixação de conteúdos e por orientações programadas, e a aprendizagem segue um percurso individual, instrucional, demandado mais por fatores ambientais e comandos externos.

Já as abordagens cognitivistas têm como preceito uma relação mais ativa e dinâmica entre o sujeito e o objeto do conhecimento. Os estímulos externos que condicionam e geram aprendizado, por meio da linguagem e da interação, são partes da aprendizagem à medida que, para se constituir o desenvolvimento integral, o sujeito extrapola o condicionamento. Para aprender, é necessário haver troca, partilha.  

Do paradigma cognitivista temos as teorias construtivistas, interacionistas,  humanistas, socioconstrutivistas e sócio-históricas, cujo engajamento com a EaD se dá de forma mais aproximada e apropriada quanto às singularidades e concepções de aprendizagem, assim como na EPT.

As pedagogias de educação a distância construtivistas moveram a educação a distância para além do tipo estreito de transmissão do conhecimento que podia ser facilmente encapsulado em mídias, para o uso da aprendizagem síncrona e assíncrona baseada em comunicações humanas 

(Anderson e Dron, 2012, p. 125).

Pesquisadores expressivos, representantes das abordagens de base cognitivista-construtivista, foram precursores de estudos e divulgação de importantes teorias, tanto para a área original de suas investigações quanto para influenciar o campo da educação mundialmente. Dois nomes de grande destaque e referência nessa área são Jean Piaget e Lev Vygotsky. 

Ao traçar uma relação dessas teorias (construtivista e socioconstrutivista) com um curso EaD e o seu ambiente virtual, podemos dizer que o sujeito da aprendizagem assume centralidade no processo educativo. Pelo construtivismo, é possível vislumbrar um espaço em que o sujeito é o ser ativo e participativo no processo educacional, com recursos que lhe possibilitam interagir e intervir diante as situações de aprendizagem.
Utiliza-se a teoria socioconstrutivista em curso EaD, pois seu ambiente virtual garante possibilidades de intervir, interagir e participar, sendo que estas ações se perfazem de maneira partilhada, socializada, e, sobretudo, mediada. Os sujeitos constroem o conhecimento colaborativamente e os significados são compartilhados. Aprender não é um ato solitário, mas um processo de colaboração, no qual os sujeitos envolvidos aprendem e ensinam por meio de uma práxis crítica, dialógica e reflexiva  

(Anjos, A. e Anjos, R., 2018, p. 64).

Buscamos provocar reflexões e trazer à tona teorias e referências que expressam a dialogicidade no ato de aprender, especificamente no âmbito da EPT e da EaD. As trilhas de formação continuam com o processo de busca de conhecimentos, estudos e pesquisas que venham a ser realizados sobre tais temas.      

Considerando o cenário da EaD e as estratégias de aprendizagem e de um projeto pedagógico para a organização de um design instrucional flexível, existem algumas teorias que convergem mais com o fenômeno educacional e com os processos de aprendizagem constituídos na EaD. 

Essas teorias abrangem o sentido do sujeito ativo que aprende em sua totalidade biológica, cultural, social, emocional, exercendo no e pelo meio de interações e mudanças de ordem cerebral, psíquica e cognitiva que possibilitam a aprendizagem e o processamento de informações. O aspecto de ser um sujeito ativo diz respeito ao que o sujeito troca, no que interfere, do que se apropria, mudando o próprio ambiente para além de estímulos a respostas. Este é um ponto de diferença entre o comportamentalismo e as teorias de abordagem construtivista-interacionista. Assim,

as teorias socioconstrutivistas de Piaget e Vygotsky, os estudos de Ausubel sobre a organização prévia dos saberes dos alunos, a concepção de autonomia e liberdade de Paulo Freire, a tipologia de conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais de Zabala e a perspectiva andragógica de Knowles fundamentam as tomadas de decisão durante o processo educativo 

(Filatro e Piconez, 2008, p. 85).

Finalizamos esta seção mencionando o design instrucional e destacando as teorias de aprendizagem que convergem com as teorias construtivistas, abordagem teórico-metodológica adotada no planejamento para EaD – conteúdo que será tratado no Capítulo 3. 

Outras abordagens contemporâneas têm exercido influência nos conceitos e práticas de aprendizagem, tais como Neurociências na Educação e Inteligência Artificial. Você conhece essas abordagens e suas interferências no meio educacional? Incremente seus estudos com a leitura dos textos Quais os impactos do ChatGPT e da Inteligência Artificial na Educação? e “Neurociência e Educação: entre saberes e desafios”, disponível na Biblioteca de Recursos desta Unidade Temática.

Para refletir: mapa conceitual de aprendizagem na EaD

Convidamos você a assistir às videoaulas: 

i) Teorias Educacionais Aula 3 - A Teoria Histórico Cultural e o desenvolvimento humano (Profª. Andreia dos Santos Oliveira – IFRO);

ii) Teorias Educacionais Aula 4 - Construtivismo e Aprendizagem Significativa (Profª. Andreia dos Santos Oliveira – IFRO).

A partir das videoaulas e dos conteúdos abordados até o momento neste capítulo, elabore um mapa conceitual. Adote o seguinte termo-chave para iniciar o mapa: Aprendizagem na EaD. Nas ligações e caminhos de seu mapa, lembre-se de conectar as teorias, os assuntos e conceitos-chave contemplados, além de autores e precursores, fazendo suas sínteses e resumos de ideias correspondentes. Seu mapa iluminará sua jornada de formação.

Não deixe de registrar o resultado do mapa conceitual no seu Memorial e/ou siga as instruções de seu tutor!