A politecnia como alternativa

No Brasil, há uma tradição de estudos e práticas que analisaram criticamente a unidade contraditória da escola capitalista. Essa tradição fundamentou o que seria uma escola de transição, ou seja, uma proposta educativa que aponta para uma nova realidade ao mesmo tempo em que toma consciência dos valores estruturais capitalistas e de seu modo de operação. É certo que tal nova realidade não partiria de dentro da própria escola capitalista, mas tensionaria a divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual, colocando-a no centro das reivindicações dos trabalhadores e vinculando seus objetivos às lutas populares. Essa é, em síntese, a ideia de educação politécnica.

As três dimensões básicas da educação politécnica que destacam seu caráter alternativo são: 

1) compreensão dos fundamentos científicos de organização e prática do trabalho produtivo; 

2) estruturação de um sistema global de estudo e desenvolvimento da tecnologia;

3) compreensão crítica das relações entre sociedade, economia e política fundamentada na ideia de coletividade.

Observe que tais elementos questionam a própria correspondência entre o sistema educacional capitalista e a divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual. Alternativamente (e usando a politecnia como bússola) destacam-se a compreensão profundamente científica da produção moderna, o vínculo da educação com um projeto de desenvolvimento tecnológico voltado à resolução dos problemas mais imediatos das amplas massas populares e a visão crítica das hierarquias e contradições capitalistas.

O que a educação politécnica busca fazer é democratizar radicalmente a instituição escolar, ainda que não nutra esperanças em transformar toda a sociedade a partir da própria escola. Em suma, ela contribui para a construção das bases de uma transição democrática e popular para uma nova realidade, com novos valores estruturais e institucionais e, consequentemente, novos aparelhos.

Para isso, a aparente fragmentação (unidade contraditória) é substituída por uma perspectiva articulada da organização dos sistemas educacionais. Entra em cena a ideia de formação humana integral. As três dimensões que destacamos acima ajudam a entender melhor o sentido da ideia de integração nessa concepção, visto que seus pilares são as ideias de trabalho, ciência e cultura, constituídas historicamente na conformação do modo de produção. A integração entre esses três elementos é assumida, então, como base das propostas político-pedagógicas politécnicas.

Para refletir: politecnia e formação integral

Neste ponto da discussão, um alerta é necessário: a formação integral relativa à proposta politécnica não se refere simplesmente à construção de personalidades humanas, assim como os seus objetivos não dependem apenas de esforços individuais. A rigor, a politecnia é um conceito direcionado à transformação política da sociedade a partir de sua compreensão crítica e coletiva, e não um mero modelo baseado em aspectos psicológicos e cognitivos.

A seguir, recomendamos a visualização da aula “Educação e Pedagogia na Rússia revolucionária: o Comissariado do Povo” proferida pela professora doutora Nereide Saviani (2020).

Título: Educação e Pedagogia na Rússia revolucionária: o Comissariado do Povo Fonte: Saviani (2020); USSR Post (2014). Elaboração: Prosa (2025d).

Título: Educação e Pedagogia na Rússia revolucionária: o Comissariado do Povo
Fonte: Saviani (2020); USSR Post (2014).
Elaboração: Prosa (2025d).

Do ponto de vista epistemológico, a integração é fundamentada na perspectiva da totalidade, segundo a qual o conhecimento científico é produzido em um conjunto articulado de determinações históricas e sociais. Nessa abordagem, a realidade não é vista como uma soma de partes, mas como uma combinação de elementos dinâmicos cujos vínculos dependem de sua constituição material.

Conforme as circunstâncias dessa materialidade (níveis, locais, territórios, grupos e classes sociais), surgem contradições que podem gerar novas situações históricas. O limite desse processo é o que Louis Althusser (2015) chama de 'unidade de ruptura', que produz novos conhecimentos ou, do ponto de vista social, novos modos de produção. Eis, portanto, os dois princípios básicos da formação humana integral: um, político-social, que é a politecnia; outro, epistemológico, que é a totalidade.

E o que a gestão da escola tem a ver com isso?

Até aqui, identificamos duas grandes possibilidades de pensar a escola e a formação profissional. A primeira se orienta pelos valores estruturais e está centrada na reprodução ampliada da força de trabalho. Essa concepção ou conforma o senso comum (Saviani, 2013 [1983]), ou se restringe à superficialidade dos aspectos institucionais da educação (Saes, 2013). A segunda possibilidade, fundada no conceito de politecnia, permite a compreensão crítica acerca do funcionamento da escola capitalista e apresenta proposta de transição para uma nova realidade. Vejamos, agora, em uma visão ainda panorâmica que será aprofundada no próximo capítulo, como essas perspectivas derivam visões e terminologias distintas sobre a gestão escolar.