Fundamentos e origens da gestão de sistemas da EaD

A gestão da EaD é um tema de grande relevância devido à sua complexidade e características próprias (Behr e Mill, 2018), porém, muitos gestores ainda enfrentam dificuldades, principalmente devido ao despreparo profissional. Muitas vezes, a gestão da EaD é abordada com base em princípios de gestão empresarial, ou então considera aspectos educacionais, mas raramente se concentra nas particularidades da gestão de sistemas de EaD, que possui aspectos únicos e exige uma abordagem distinta das outras formas de gestão, seja em contextos empresariais ou educacionais. No Brasil, a profissionalização da gestão de EaD ainda está em processo de amadurecimento e se revela como uma necessidade crescente.

A literatura sobre a gestão da EaD também aponta lacunas, sobretudo no contexto brasileiro, pois existem poucos estudos e reflexões sobre a prática da gestão de EaD adaptada à realidade nacional. Uma rápida pesquisa nas produções científicas em português, inglês, francês ou espanhol revela uma escassez de análises sobre a formação de gestores e as exigências específicas desse contexto, seja no planejamento, execução ou na gestão das atividades da EaD na realidade brasileira. Embora os estudos de outros países possam fornecer base teórica, não abordam todas as especificidades que abrangem o cenário brasileiro.

Nesse contexto, destaca-se a importância de refletir sobre o profissional responsável pela gestão dos sistemas da EaD e a busca por uma compreensão mais profunda dos elementos constitutivos dessa gestão. Nessa discussão, alguns pontos-chaves incluem: compreender a configuração dos sistemas de gestão na EaD; definir a estrutura ideal para a EaD no Brasil, identificar as características de um bom gestor da EaD; mapear os conhecimentos e saberes necessários; reconhecer os desafios enfrentados pelos profissionais da área.

Responsabilidades do gestor educacional na EaD

Título: Responsabilidades do gestor educacional na EaD
Fonte: Prosa (2025e).

Embora a gestão da educação presencial também envolva complexidade, a gestão da EaD apresenta questões adicionais, como logística, questões trabalhistas, financeiras, formação de docentes e institucionalização de processos (Moore e Kearsley, 2013; Shelton e Saltsman, 2005). 

Há tempos, autores da área de administração, como Idalberto Chiavenato (1983), Antonio Cesar Amaru Maximiano (1997), Nilsa Maria Guarda Canterle e Fabio Favaretto (2008) e Luiza Cesar Ribeiro Carpinetti (2010), exploraram as etapas dos processos produtivos:

  • (a) concepção/planejamento;
  • (b) sistematização/organização;
  • (c) coordenação/direção;
  • (d) supervisão/controle dos processos de produção de bens e serviços.

As abordagens mais recentes para a gestão institucional, entre as quais estão a gestão por objetivos, a gestão de processos, a gestão de sistemas, entre outras, compõem um processo evolutivo desse campo do conhecimento. Embora a gestão de instituições educacionais se baseie nesses princípios científicos, ela apresenta características únicas que exigem atenção especial por parte dos gestores; em instituições de EaD, emergem outras especificidades que também precisam ser consideradas.

Etapas dos processos produtivos na gestão de sistemas da EaD

Título: Estratégias para otimizar a gestão e a implementação da EaD em
instituições públicas
Fonte: Prosa (2025f).


Uma gestão adequada dos sistemas da EaD é fundamental para o sucesso da formação e para a criação de experiências educacionais valiosas; como percebemos ao analisar experiências de EaD em instituições públicas, o sucesso implica também uma gestão responsável dos recursos públicos e no adequado atendimento à população. Como apontou Litwin (2001),
o verdadeiro desafio da EaD está em seu caráter democratizante e na adequação da proposta pedagógica e dos materiais didáticos, desenvolvidos sob a orientação dos gestores, que desempenham um papel crucial no processo (Mansur, 2001).

O papel do gestor, especialmente em instituições públicas que ofertam EPT, é alinhar os processos de gestão à formação integral e acessível ao cidadão brasileiro. Tal democratização deve ser almejada pelos gestores da EaD, bem como pelos docentes, o que é um grande desafio, pois, como afirmam Simonson et al. (2009), liderar e fazer a gestão de um programa de EaD é mais complexo do que os papéis de estudante ou professor. Ser gestor exige uma perspectiva diferenciada, envolvendo lidar com as complexidades do gerenciamento de docentes, alunos e colaboradores.

Já existem algumas pesquisas sobre gestão de EaD no Brasil, mas, apesar da relevância do tema, elas ainda são limitadas. Existem lacunas nas análises que abordam questões essenciais da gestão da EaD no contexto nacional, como mostram os estudos de Juliana Guimarães Faria (2011),  Jonilto Costa Souza (2012) , Daniel Mill e Glauber Santiago (2021). Precisamos aprofundar o entendimento sobre o papel do gestor de EaD e os conhecimentos, desafios e práticas que constituem a gestão.

A EaD é comumente vista como um sistema composto por vários subsistemas, tais quais a aprendizagem, a docência, os materiais didáticos, a gestão, a comunicação e a tecnologia (Souza, 2012; Mill, 2018; Mill e Santiago, 2021). Como ressalta Ricardo Antunes de Sá (2007), cada subsistema tem suas características próprias, que só se tornam evidentes quando interagem em um processo dinâmico. A visão sistêmica da EaD é importante para entender as relações entre as partes que formam o sistema como um todo, considerando sua interdependência (Mill, 2022). Na definição de EaD de Moore e Kearsley (2008), a modalidade é como um sistema que envolve todos os processos de ensino, aprendizagem, comunicação, criação e gerenciamento, por isso a importância de uma abordagem ampla e sistêmica para compreender a EaD.

Da mesma forma, Sá (2007, p. 27) vê a EaD como “fruto de uma trama, de uma teia de inter-relações e interdependências, as quais demandam um entendimento das relações entre as partes e delas em relação ao todo”. A gestão da EaD deve, portanto, reconhecer as interdependências e as relações entre as partes e o conjunto, compreendendo como os subsistemas se tornam, dinamicamente, componentes de um sistema maior, o que requer uma análise tanto dos elementos individuais quanto do sistema como um todo (Mill e Yamaguchi, 2017). Em resumo, a gestão de EaD deve ser vista sob uma perspectiva macroscópica, entendendo os subsistemas e suas interações para garantir o sucesso do modelo educacional. Nas próximas seções, exploraremos a estrutura do sistema de gestão da EaD em detalhes.