Análise multifatorial: da evasão para a permanência
A análise de evasão e de permanência tem evoluído para incluir abordagens que consideram a complexidade das relações entre os estudantes, suas trajetórias e o ambiente educacional.
A abordagem que usa a evasão como referência constantemente envolve dois contextos de investigação, os quais enfatizam os dados a partir da saída do estudante:
- Contexto individual: remete aos estudantes em suas dimensões cognitivas, psicológicas e familiares.
- Contexto institucional: refere-se à escola, ao sistema de ensino.
A abordagem que elege a permanência como objeto de investigação destaca uma dinâmica existente para subsidiar a elaboração e a implementação de ações – as quais são fruto de uma política pela permanência do estudante, uma política pela consolidação do direito à educação.
É comum que políticas de apoio à permanência estejam associadas à políticas de transferência de renda. Embora haja casos de abandono dos cursos por problemas financeiros, este não é o único motivo para o abandono escolar: há casos em que a dificuldade na permanência escolar está associada à questões estruturais específicas, como a necessidade de alimentação escolar, a garantia de um transporte que leve e traga o estudante, as dificuldades próprias do ensino noturno etc.
Há ações de auxílio financeiro e material que podem ter grande impacto. O Plano Nacional de Assistência Estudantil foi um importante avanço nas políticas de apoio à permanência escolar, porém, ainda não é suficiente para manter o estudante na Educação Profissional. Nesse sentido, a Política de Acompanhamento dos Egressos (PAE), por exemplo, que acontece no Instituto Federal do Paraná (IFPR), configura-se como uma proposta de continuidade das políticas de permanência porque compreende o trabalho como um princípio educativo, conforme a diretriz da EPT.
Além disso, é preciso considerar cada estudante como um ser único, que possui uma história pessoal: um sujeito que interpreta o mundo e atribui significado às suas experiências, às relações sociais que estabelece e ao espaço que ocupa. Esses fatores, somados aos desejos e motivações dos estudantes, além das questões de estrutura material, também são fundamentais para compreender como ele se integra ao ambiente escolar.
As contribuições de Vicent Tinto
Nos Estados Unidos, investigações sobre abandono na Educação Superior são realizadas desde a década de 1950. , nos anos de 1970, propôs um modelo de pesquisa longitudinal sobre evasão, o qual foi revisado posteriormente e se tornou uma das abordagens mais influentes e amplamente adotadas por pesquisadores da área.
Diversos trabalhos de outros pesquisadores passaram a identificar causas recorrentes que implicavam a evasão, observando uma multiplicidade de cursos e diferentes perfis de estudantes. Esses trabalhos, de maneira geral, confirmaram as premissas teóricas propostas posteriormente por Tinto, já em 1994, fomentando o debate sobre a evasão e possibilitando que fosse estudada no ensino superior. O autor afirmou que:
embora tenhamos uma impressão de quais tipos de ação parecem funcionar (para reduzir a evasão), não somos ainda capazes de dizer aos administradores como e quais diferentes ações funcionam em diferentes campi e para diferentes tipos de alunos
De acordo com Tinto (1994), há influências de quatro conjuntos de fatores sobre a decisão de evadir:
- Os atributos prévios à entrada na faculdade, como o contexto familiar, habilidades e a escolaridade.
- A inter-relação entre os objetivos e o comprometimento tanto da instituição quanto dos estudantes.
- O conjunto de relações formais e informais estabelecidas nos ambientes acadêmicos e sociais, como o desempenho acadêmico, a interação com os funcionários da instituição e as atividades extracurriculares.
- A integração, acadêmica e social, que os itens anteriores proporcionam.
Esse modelo reforça a importância da passagem e da adaptação dos discentes de uma comunidade do Ensino Médio para outra realidade do Ensino Superior, destacando os fatores que influenciam a decisão de permanência.
Vincent Tinto ressaltou que a compreensão da evasão não é suficiente para resolver os problemas relacionados à permanência estudantil. Em suas palavras, “[...] sair não é a imagem espelhada de ficar” (Tinto, 2006, p. 6, tradução nossa). Isso significa que os métodos para promover a permanência devem ser baseados em abordagens práticas e contextuais que sejam capazes de atender às demandas específicas de diferentes grupos sociais.
Título: Quem são os estudantes que evadem?
Fonte: Alvaz (2024); Bomfim (2022); Camp ASCCA (2016); CEFET-MG (2010); Costa (2022); IBGE (2023); Instituto Unibanco (2024); MEC (2024); Núcleo Pedagógico MIR (2015); Secom/UnB (2018); UNDP (2011) e USCS (2016).
Elaboração: Prosa (2025c).
O envolvimento está entre os fatores que mais influenciam a permanência escolar, e abrange tanto o desempenho nas tarefas acadêmicas quanto a organização dos recursos e do currículo pelas instituições. É claro que a ausência de qualquer envolvimento acadêmico normalmente leva ao insucesso escolar e, consequentemente, a uma saída forçada, de acordo com Tinto (1994).
No entanto, para alguns estudantes, possuir altos níveis de participação acadêmica e uma aprendizagem bem sucedida pode não ser suficiente para compensar o efeito de isolamento social. Para outros, o envolvimento social pode compensar a falta de envolvimento acadêmico, ou seja, esses estudantes seriam capazes de permanecer por conta das amizades que encontraram.
Mesmo que pareça evidente que a experiência dos estudantes é determinante para a sua permanência no percurso formativo, é comum que as instituições não promovam mudanças significativas que afetem positivamente as experiências deles. Por isso, segundo Gerson Carmo, Heise Arêas e Carlos Âreas (2022), poucos esforços são feitos para alterar as causas mais profundas da evasão. Frente a isso, é importante identificar a permanência como um processo contínuo, e não como a ausência de evasão. Isso significa considerar a permanência como mudança, vínculo e ato político, reconhecendo suas dimensões materiais, simbólicas e afirmativas.
Imagem: Busto de Vicent Tinto. 
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