Qualidade na EaD e na EPT
É preciso, então, defender a superação de um modelo de qualidade economicamente orientado a fim de atingir outro, baseado nas expectativas e interesses de cunho social. O capitalismo, como modo de produção, caracteriza-se pela otimização quantitativa dos processos, visando ao lucro. De forma objetiva, cursos a distância com qualidade economicamente orientada veem na EaD a oportunidade de precarizar os processos e aumentar o lucro.
As formas de precarização são diversas, cabendo citar exemplos como: expropriação de saberes docentes por meio da elaboração de materiais didáticos que são vendidos pelos autores e autoras e replicados muitas vezes sem adaptação e contextualização; contratação de profissionais – como tutores – com menor titulação e, consequentemente, menor remuneração; relação docente-aluno mais afastada, inviabilizando processos de acompanhamento e devolutivas individualizadas; massificação da proposta numa escala industrial pouco preocupada com as especificidades regionais e assim por diante. Marcello Ferreira, Wilsa Ramos e Braian Veloso (2024) propõem para a EaD, então, uma perspectiva de qualidade ecossistêmica.
Discutimos, no primeiro capítulo, que a história dos cursos a distância passa por um momento de organização das assim chamadas universidades abertas, isto é, instituições unimodais que
[...] criam aproximação íntima entre a modalidade e as características basilares do modo de produção capitalista
Há, tal como analisa Otto Peters (2001), um modelo verdadeiramente industrial de produção, que se interessa em atingir o máximo da eficiência quantitativa por meio da produção massificada de materiais didáticos e da intensa divisão e fragmentação do processo de trabalho, incluindo as atividades docentes.
Se, por um lado, esse modelo industrial foi importante para ampliar a oferta e garantir acesso educacional a parcelas da população historicamente afastadas da educação presencial convencional, por outro lado, com o advento e a expansão das tecnologias digitais, torna-se possível assegurar interiorização e democratização sem abrir mão de uma qualidade socialmente referenciada, que prima pela personalização e pela flexibilização do ensino e se alinha a tendências sociais mais recentes. É por isso que Ferreira, Ramos e Veloso (2024) defendem uma proposta de indicadores à matriz-qualidade para a EaD, superando a hegemonia de um modelo econômico pautado pela busca desenfreada por lucro.
Título: Matriz de qualidade para a EaD
Fonte: Ferreira, Ramos e Veloso (2024, p. 81).
Elaboração: Prosa (2025b).
Percebe-se, então, uma proposta de qualidade para a EaD que considera o contexto político, social e cultural, a governança institucional e a inovação nos processos de ensino-aprendizagem. A proposição de Ferreira, Ramos e Veloso (2024) sugere explorar as potencialidades nos cursos a distância também no que diz respeito à interiorização da oferta, prezando por especificidades regionais e locais, valorizando a cultura e a economia das regiões interioranas, a sustentabilidade socialmente orientada e a acreditação social. É preciso levar em conta alguns aspectos essenciais para que tal projeto se concretize, como a racionalidade repensada a partir do desenvolvimento humano, as possibilidades de abertura alinhadas a um objetivo de democratização, um currículo visando à preparação para a formação continuada e ao longo da vida, o enfoque no desenvolvimento integral e sistêmico, a valorização da flexibilidade pedagógica em suas variações de tempo, espaço e engajamento subjetivo e propostas de projetos formativos ampliados, com qualidade política e formal.
Sabemos que a EaD é uma importante ferramenta de ampliação e democratização do acesso à EPT, mas a expansão de cursos a distância visando somente ao lucro é preocupante. O resultado direto desse movimento é a precarização das propostas, que passam a não almejar a e integral dos sujeitos. Precisamos pensar, portanto, numa matriz de qualidade que seja socialmente orientada, partindo de uma visão ecossistêmica que esteja para além das normas do modo de produção capitalista.
Exercício: Novos referenciais de qualidade da EaD (2025)
Sugerimos que você realize uma atividade de leitura, análise, sistematização e discussão em fórum dos novos Referenciais de qualidade de cursos de graduação com oferta a distância (2025). Quais elementos e dimensões de qualidade você identifica no documento que contribuem tanto para a EaD quanto para a EPT?
Registre em seu Memorial e/ou siga as instruções de seu professor e/ou tutor.
É possível observar que, no curso apresentado, são valorizadas as potencialidades da EaD no contexto da EPT: o conteúdo abrange conhecimentos pedagógicos voltados à educação técnica e tecnológica e o modelo pedagógico pressupõe tutoria e acompanhamento docente, com devolutivas formativas individualizadas, espaços de troca e construção coletiva do conhecimento, materiais didáticos usando recursos multimidiáticos e outras características que viabilizam uma EaD mais significativa e ativa do ponto de vista da aprendizagem. O trabalho polidocente, nesse sentido, pode ser construído à luz de uma perspectiva de sinergia, para que diferentes profissionais – docentes e não docentes – atuem coletivamente para assegurar o atendimento massivo e a qualidade formativa.
Em conclusão, constatamos que a EaD pode se juntar a outras modalidades, criando oportunidades educacionais para pessoas que, de outra forma, não seriam atendidas a contento pela educação presencial. Diversos são os desafios ao se organizar cursos a distância, mas várias potencialidades podem ser exploradas quando as propostas primam por uma qualidade socialmente referenciada. EaD e EPT, portanto, podem se vincular, com vistas a construir processos de ensino-aprendizagem mais abertos, democráticos e de qualidade. Para tanto, o trabalho crítico, com intencionalidade e conhecimento adequado se apresenta como imprescindível.
Esperamos que você, estudante, tenha aproveitado os conteúdos deste material didático a fim de possa mobilizá-los em suas atividades, sejam elas quais forem.




