Polidocência na EaD

Dando continuidade à nossa discussão, é preciso pensar nas implicações desse processo industrializado para a atuação docente. Tendo em vista que a otimização dos recursos e a redução dos gastos demandam fragmentação e divisão do trabalho, há que se pensar em como isso afeta as atividades do professor na EaD. Segundo Maria Luiza Belloni (2003) essa modalidade, devido à complexidade na organização dos processos, exige o que a autora chama de professor coletivo. Isso significa que um conjunto de profissionais deve atuar colaborativamente para assegurar a qualidade dos processos de ensino-aprendizagem.

No entendimento de Mill (2014), esse coletivo pode ser chamado de polidocência. Para o autor, a EaD compreende um conjunto de trabalhadores que compõem uma equipe polidocente. Na educação presencial, por praxe, um mesmo profissional docente é responsável por uma série de atividades. Por exemplo: nos cursos presenciais, o docente elabora, organiza e seleciona os conteúdos e materiais didáticos; define o plano de ensino e os planos de aulas; aplica os conteúdos ao longo do semestre, propondo atividades diversas e lançando mão de estratégias pedagógicas variadas; acompanha ativamente o processo de ensino-aprendizagem, esclarecendo dúvidas e proporcionando devolutivas formativas; além disso, avalia os conteúdos considerando o diagnóstico inicial, os percursos e os aprendizados ao fim dos processos.

Na EaD, por outro lado, todas essas funções são fragmentadas e divididas entre vários profissionais. Ao invés de um único docente, há uma equipe responsável pelo conjunto das etapas, que vão desde a elaboração e diagramação dos materiais didáticos ao acompanhamento e a avaliação do processo de ensino-aprendizagem. A polidocência, então, é uma categoria analítica, de cunho crítico, que nos auxilia na análise e na compreensão desse coletivo de trabalhadores (Mill, 2014). Na equipe polidocente, encontram-se profissionais docentes, dedicados às atividades que envolvem ensino-aprendizagem diretamente, e profissionais não docentes, que, apesar de sua importância, não exercem funções típicas de docência. Para melhor compreender as diferentes funções dos trabalhadores considerados docentes, observe a sistematização a seguir:

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Título: Quadro docente na polidocência 
Fonte: Prosa (2025a).

É preciso, no entanto, fazer alguns esclarecimentos: primeiramente, vale reiterar que a polidocência também conta com outros profissionais não docentes. Entre eles, podemos citar:

  • os designers instrucionais, responsáveis por fazer o desenho pedagógico da disciplina nos Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA);
  • profissionais de secretaria, que atuam junto às questões burocráticas do curso;
  • equipes de apoio técnico, como operadores de câmera para gravação de videoaulas;
  • equipe de redação e revisão, que trabalha com a adequação e a melhoria dos materiais didáticos;
  • equipe técnica, que assegura o funcionamento e a organização dos AVA;
  • técnicos de laboratório, que auxiliam nas atividades laboratoriais em cursos que exigem tais atividades práticas.

Além disso, precisamos destacar que a estrutura da polidocência varia conforme a instituição, o curso, a disciplina/componente curricular ou mesmo a concepção pedagógica na qual o processo de ensino-aprendizagem é baseado. Existem, por exemplo, instituições em que o docente-autor/conteudista é o mesmo que aplica os conteúdos, atuando também como docente-formador/aplicador. Isso costuma garantir mais qualidade, já que o responsável por conceber e elaborar os conteúdos é aquele que também acompanha sua aplicação e, por consequência, o desenvolvimento e a aprendizagem dos estudantes. A existência de docentes-tutores presenciais, por sua vez, depende da existência de atividades presenciais em polos de apoio. Alguns cursos, como as especializações, podem não contar com atividades em polos, o que exclui a figura da tutoria presencial.

Independentemente das especificidades das propostas e das distintas formas de configuração do processo pedagógico, a EaD, especificamente nos cursos de educação formal, exige divisão e fragmentação do trabalho. A complexidade dos processos, que envolvem o uso de várias tecnologias digitais, atendimento massivo e otimização dos procedimentos, acaba por inviabilizar a oferta de um curso por apenas um docente. É claro que propostas de menor dimensão, geralmente no âmbito da educação não formal, podem contar com configurações menos robustas e complexas em relação à docência, mas cursos superiores ou de nível técnico que oferecem certificação ao fim do percurso geralmente exigem uma organização em formato de polidocência.

Por um lado, atuar em uma equipe de profissionais pode promover um ambiente de colaboração e compartilhamento entre trabalhadores de diferentes áreas, que somam esforços visando à produção de materiais de melhor qualidade. Por outro lado, a divisão e a fragmentação podem ser muito perversas, uma vez que fazem o docente perder a dimensão do todo (Veloso, 2018): há um menor acompanhamento dos processos, o que representa uma alienação, na medida em que o conhecimento é sintetizado em forma de material didático e vendido para uma instituição.

card do curso

Título: Riscos do isolamento na polidocência
Fonte: Prosa (2025b).

Nessa ótica, muitos cursos contratam docentes-autores/conteudistas com alta especialização, geralmente mestres e doutores, que vendem os direitos autorais daquilo que é produzido e materializado no texto escrito. A instituição, por sua vez, passa a deter os direitos dos materiais, replicando-os infinitamente por meio da mediação de profissionais de tutoria, que geralmente têm menor qualificação – graduados ou especialistas – e, por isso mesmo, recebem salários ou pagamentos menores.