Capítulo 4

Organização do trabalho pedagógico na EaD


 

Até aqui, discutimos vários elementos relativos à Educação a Distância (EaD). Falamos sobre seu desenvolvimento histórico no Brasil e no mundo e as regulamentações que definem e organizam essa modalidade no país e apresentamos definições conceituais que nos ajudam a melhor compreendê-la. Neste quarto capítulo, nosso objetivo é discutir e analisar a organização do trabalho pedagógico na EaD, assunto que se mostra complexo e apresenta especificidades quando comparado à educação presencial.

Para isso, introduziremos um conceito fundamental, proposto por Daniel Mill (2014): a polidocência. Antes de chegarmos nele, porém, vamos fazer algumas contextualizações.

Lembre-se de que, em capítulos passados, ao falar sobre o desenvolvimento histórico da EaD, abordamos uma geração marcada pelo surgimento das chamadas universidades abertas, sobretudo aquelas oriundas do continente europeu; entre elas podemos citar a Fern Universität, instituição alemã voltada exclusivamente à oferta de cursos a distância. Otto Peters, professor alemão, é um dos fundadores dessa universidade e importante teórico na área de EaD.

Peters (2001) é responsável pela teoria da industrialização. Esse autor nos mostra como os cursos a distância, notadamente no contexto das universidades abertas, adotam uma perspectiva de organização dos processos que muito se assemelha ao modelo de produção industrial ou fordista/taylorista. A EaD, portanto, devido a essa especificidade, é capaz de produzir oferta com maior abrangência de público e eficiência técnica do que os cursos presenciais.

Modelo de produção industrial

O modelo de produção taylorista e fordista remete a uma forma de organização científica e técnica do trabalho. Frederick Taylor, engenheiro mecânico estadunidense, foi o responsável pelo conceito de administração científica do trabalho; suas ideias traziam um modelo de organização das atividades laborais baseado na racionalidade técnica, com divisão e especialização de funções, cronometragem de cada etapa etc.

Henry Ford, criador da marca de automóveis Ford, também contribuiu para a disseminação de um modelo racional de organização do trabalho. Além da especialização e divisão de funções, seu modelo contava com o uso da esteira de produção, que acelera o processo produtivo e torna a jornada de trabalho exaustiva.

As ideias de Taylor e Ford foram essenciais para determinar o modelo de produção vigente no século XX, que, apesar de ter sofrido mudanças ao longo do tempo, ainda é presente em muitas fábricas.

Onilza Martins (2005) retoma as proposições de Peters (2001) e considera ainda que a produção de materiais na EaD é realizada em escala industrial, de modo que são preparados por uma equipe de especialistas de diversas áreas, envolvendo mudanças significativas nas funções docentes típicas: o planejamento, a organização racional, a divisão do trabalho e a formatação dos processos se alinham ao modelo de produção industrial. Nessa perspectiva, centralizar e monopolizar a produção torna o sistema educacional à distância economicamente proveitoso e permite um rigoroso e contínuo controle nos processos industriais da EaD, com sistematizações que objetivam e otimizam o tempo e o trabalho dos recursos humanos.

Percebe-se, pelo que foi dito, que os cursos à distância massificados, como os ofertados pelas universidades abertas europeias, muito se assemelham à organização científica do trabalho. Procura-se otimizar o trabalho no intuito de diminuir gastos e aumentar lucros ou resultados. Há uma preocupação sobretudo quanto à eficiência quantitativa, isto é, a possibilidade de atender a uma grande massa de indivíduos com menos investimentos de tempo e de recursos.

Se, por um lado, o modelo industrial foi capaz de ampliar as potencialidades de democratização do acesso educacional por meio da EaD, devemos considerar que tais processos, por outro lado, são altamente racionalizados e criam problemáticas diversas. Lucila Pesce (2007), ao analisar a formação específica de professores por meio da educação a distância, problematiza a modalidade e afirma que a otimização dos cursos é feita por meio da redução dos recursos humanos.

No que se refere à formação de professores, a dissociação entre teoria e prática é, sem dúvidas, um dos grandes debates que perpassam as discussões sobre EaD. Muitas críticas direcionadas aos cursos a distância pautam-se na ideia de que a separação no tempo e no espaço e a flexibilidade pedagógica tornam os cursos transmissivos, exclusivamente teóricos e pouco preocupados com a dimensão prática, humana e experiencial do processo de ensino-aprendizagem.

A partir dos conceitos discutidos por José António Moreira e Eliane Schlemmer (2020), vistos no capítulo anterior, podemos lembrar que as primeiras experiências históricas foram baseadas na tecnologia da escrita e da correspondência, chamadas de Ensino a Distância devido ao seu enfoque no ensino, ou seja, na transmissão de conteúdos. Esta perspectiva, dita “bancária”, é criticada por Paulo Freire (1994) por colocar o docente como centro do processo e o estudante como mero receptáculo vazio para o “depósito” de conhecimentos. As universidades abertas, em suas primeiras experiências, não se mostraram exceções a essa regra, na medida em que se apoiavam fortemente na tecnologia da escrita e no atendimento massivo, promovendo o que Peters (2001), como já mencionado, definia como industrialização da educação.

Temos, a partir dessa análise, uma contradição: o atendimento massivo e a otimização dos processos via modelo industrial mostram-se importantes para ampliar e democratizar o acesso, dando oportunidades a custos acessíveis àqueles que, de outra forma, não poderiam frequentar a educação presencial convencional. Essa massificação, porém, acaba por despersonalizar o processo de ensino-aprendizagem, tornando-o genérico e distanciado das realidades concretas dos indivíduos. Assim, caberia questionar se uma formação de qualidade deveria considerar as especificidades dos sujeitos em suas realidades e de que maneira a EaD poderia fazê-lo, ofertando propostas de qualidade para promover um atendimento ampliado que contribua para a democratização do ensino, consequentemente atendendo uma grande parcela da população que não é adequadamente contemplada pela educação presencial. As respostas para tais questionamentos são complexas e, dentro das discussões feitas hoje em dia, não há unanimidade.