EaD e suas variações conceituais
Para Moreira e Schlemmer (2020), é no final da década de 1990 que, com o desenvolvimento dos primeiros Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA), conhecidos em inglês como Virtual Learning Environments, começam a surgir, inclusive no Brasil, experiências do que chamamos de Educação a Distância. Vejamos que o uso do termo Educação não é acidental nem arbitrário. Tem a ver, na verdade, com a própria mudança na forma de organização dos processos de ensino-aprendizagem.
No entendimento de Daniel Mill (2012), a palavra educação é mais abrangente e, em síntese, abrange o ensino, a aprendizagem, a gestão e as tecnologias. Percebe-se, nessa ótica, uma preocupação com a outra ponta do processo educacional, qual seja, os estudantes em seu processo de aprendizado. Tal concepção, que se apoia especialmente nas possibilidades dos AVA, alinha-se às críticas ao modelo tradicional transmissivo, feitas por diferentes estudiosos como Jean Piaget, Paulo Freire, Maria Montessori, Lev Vygotsky etc.
Dentre os AVA mais usados no mundo cabe citar o Moodle, acrônimo de Modular Object-Oriented Dynamic Learning Environment – ou, na tradução livre, Ambiente de Aprendizagem Dinâmico Modular Orientado a Objetos.
Essa ferramenta se destaca por ser gratuita e oferecer código de acesso aberto. Isso significa que qualquer usuário pode ter acesso ao código fonte, fazendo modificações e/ou elaborando recursos adicionais que são compartilhados entre a própria comunidade. No Brasil, por exemplo, a grande maioria das instituições públicas utiliza o Moodle como ferramenta que permite a gestão do ensino-aprendizagem.
A EaD, assim, abrange processos que vão além do foco no ensino, preocupando-se com o processo educacional de forma ampla. Em termos técnicos e práticos, as propostas de EaD, alicerçadas nas tecnologias digitais, misturam possibilidades de comunicação síncrona e assíncrona, baseando-se em recursos como chat, fórum, webconferência e texto, entre outros exemplos. Considera-se, então, a sigla EaD, correspondendo ao termo Educação a Distância, como a mais correta para se referir aos cursos recentes, apoiados pelos recursos tecnológicos da internet e dos AVA.
Ainda para Moreira e Schlemmer (2020), as definições demandam outras precisões analíticas. EaD, a título de exemplificação, diferencia-se do que, durante o período pandêmico, foi chamado de Ensino Remoto. Durante a pandemia de Covid-19, entre 2020 e 2023, as medidas de distanciamento e isolamento social exigiram das instituições educacionais da educação básica ao ensino superior a interrupção das aulas presenciais. Como medida emergencial, visando mitigar os impactos da paralisação das atividades, várias escolas e universidades adotaram o que se convencionou chamar de Ensino Remoto Emergencial (ERE) – termo mais recorrente, embora algumas variações também tenham sido usadas, como Ensino Não Presencial, Estudo Remoto e outros.
Moreira e Schlemmer (2020), alinhando-se a esforços teóricos de outros autores como Luís Cláudio Saldanha (2020), Charles Hodges et al. (2020) e Daniel Buniotti e Paulo César Gomes (2021), separam EaD de ERE. A primeira, além de definida na legislação brasileira como modalidade, traz consigo especificidades. Os cursos a distância regulamentados contam com características como pessoal qualificado, políticas de acesso, materiais adaptados, uso amplo de tecnologias que viabilizam comunicação síncrona e assíncrona, dentre outros. O ERE, por outro lado, configura-se como forma de ensino que pressupõe distanciamento geográfico entre docentes e estudantes. O processo, no formato remoto, é comumente conteudista e transmissivo, baseando-se na transposição da aula presencial expositiva para o formato on-line ou a distância, usando recursos como, principalmente, a internet, o computador e/ou os smartphones. Ademais, o ERE se caracteriza por ser uma transposição emergencial de propostas educacionais que não foram inicialmente concebidas para serem a distância e que, cessados os impedimentos circunstanciais, voltarão para o formato presencial tradicional (Moreira e Schlemmer, 2020).
Dando continuidade às distinções, os autores apresentam outros conceitos, mais recentes, que fazem parte do que chamamos de EaD, mas se configuram como desdobramentos específicos. O e-Learning, etimologicamente, é a junção das palavras electronic e learning, que na tradução livre seria aprendizagem eletrônica. Para se caracterizar como tal, a proposta precisa usar tecnologias para gerir, desenhar, distribuir, selecionar, transacionar, apoiar e expandir os processos de ensino-aprendizagem (Moreira e Schlemmer, 2020).
Outro termo a ser mencionado é a Web-based Learning, ou Aprendizagem Baseada na Web. Como o próprio nome sugere, essa forma de EaD usa tecnologias ou ferramentas da internet, promovendo um processo ativo, dinâmico e centralizado nos estudantes. Por sua vez, Open Learning, ou Aprendizagem Aberta, é uma abordagem para o ensino-aprendizagem que coloca ênfase na autonomia e nas decisões por parte dos discentes, que podem definir seu próprio percurso formativo, escolher módulos, tomar decisões quanto aos materiais e selecionar aquilo que querem estudar (Moreira e Schlemmer, 2020).
Nessa perspectiva, a educação presencial também pode apresentar maior flexibilidade quanto à abertura dos processos, da mesma forma que o processo pode ser a distância, configurando o que chamamos de , definida pela sigla “EAD” em vez de “EaD”. No âmbito do que chamamos de EAD, Moreira e Schlemmer (2020) apresentam o MOOC – Massive Open Online Courses, ou, na tradução livre, Cursos On-line Abertos e Massivos. Trata-se, basicamente, de propostas autoinstrucionais em que o estudante pode se inscrever de maneira flexível, assistindo às videoaulas ou acessando os conteúdos no seu ritmo e tempo. Alguns possuem avaliações que são, por via de regra, automatizadas. Outra característica essencial dos MOOCs é o seu caráter massivo, objetivando atender muitos estudantes por meio do uso da tecnologia digital.
Citamos ainda o Blended Learning, Ensino ou Educação Híbrida (EH) na tradução livre. Esse termo associa-se à ideia de mistura e frequentemente está vinculado a propostas que reúnem as características da educação presencial e da educação a distância. É uma forma de tentar explorar “o melhor dos dois mundos”, apoiando-se em momentos presenciais, com encontros num mesmo espaço e tempo, e tecnologias, sobretudo digitais, que viabilizam a interação virtual síncrona e assíncrona (Moreira e Schlemmer, 2020). A Educação Híbrida é vista, por Braian Veloso, José António Moreira e Daniel Mill (2023), como uma tendência para a educação, na medida em que o uso de recursos tecnológicos digitais e a flexibilização dos processos se mostram cada vez mais recorrentes nas experiências educacionais. Para melhor visualização das informações, veja o infográfico a seguir:

Título: Variações e desdobramentos dos conceitos de EaD
Fonte: Moreira e Schlemmer (2020).
Elaboração: Prosa (2025b).