O papel do professor e do tutor no acompanhamento do percurso formativo dos estudantes na EaD
A partir do que foi discutido até agora, torna-se evidente que é preciso avaliar as particularidades dos papéis do professor e da equipe de tutores na EaD. Para isso, veremos de que forma esses profissionais podem atuar nesse contexto. Lembrando que as instituições utilizam diferentes nomenclaturas para esses tutores, de acordo com o modelo adotado, podendo ser presenciais, a distância, de acompanhamento em laboratórios, de assistência pedagógica, entre outros.
O professor
O professor na EPT assume o papel central de orientador e incentivador do percurso formativo. Sua atuação vai além da mera disponibilização de conteúdo pré-definido. Ele deve buscar a problematização da realidade e das teorias e ser responsável por conceber um processo de ensino-aprendizagem baseado na metodologia histórico-crítica, propondo avaliações não como uma mensuração de conhecimentos, mas como um processo contínuo e dialético que promova a reflexão do estudante sobre sua aprendizagem. Para isso, o professor deve:
- Propor atividades que estimulem a criatividade humana e superem prescrições fechadas, valorizando as possibilidades de uso das tecnologias;
- Elaborar e mediar exercícios práticos, pesquisas bibliográficas, estudos de caso e projetos integradores, que são essenciais para os processos de avaliação e para a formação dos estudantes;
- Ajustar o conteúdo e personalizar a abordagem com base nas avaliações prévias dos estudantes;
- Assegurar que a relação entre teoria e prática seja dialética, promovendo a práxis social como produtora de conhecimentos e a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.
A EaD oferece oportunidades para expandir o acesso ao ensino, especialmente na EPT. No entanto, a oferta a distância também impõe uma série de desafios para os professores, que precisam adaptar suas práticas pedagógicas às especificidades dela.
Entre os desafios enfrentados pelo professor na EaD, destacam-se:
- Acompanhamento dos processos dos estudantes: embora a EaD tenha democratizado o acesso à educação, a ampliação de vagas em larga escala pode resultar em um acompanhamento superficial dos alunos, especialmente em cursos com um número elevado de matriculados. Isso exige um acompanhamento mais personalizado, que respeite as diversidades individuais, as realidades sociais e os ritmos de aprendizado dos alunos.
- Sobrecarga do docente: a crescente demanda por cursos EaD tem colocado os professores sob pressão, muitas vezes levando à precarização das condições de trabalho. A sobrecarga de tarefas, como o planejamento de conteúdos, a correção de atividades e o acompanhamento individualizado, pode comprometer a qualidade da interação e o acompanhamento dos processos dos estudantes.
- Tecnologia versus humanização: o uso de plataformas como o Moodle facilita a automatização de muitos processos de acompanhamento, como o registro de atividades dos alunos, conforme vimos no capítulo anterior. No entanto, o papel do professor vai além do simples gerenciamento de dados e mensuração de resultados. O docente precisa atuar como mediador do conhecimento, utilizando as tecnologias a seu favor para incentivar a reflexão, o pensamento crítico e a colaboração entre pares, a fim de garantir que o aprendizado seja significativo e não apenas uma sequência de ações automáticas, compreendendo os estudantes como produtores de conhecimento.
Esses desafios podem ser superados a partir de algumas estratégias:
- Inovação tecnológica com sensibilidade social: o uso de ferramentas tecnológicas deve ser equilibrado com a necessidade de humanizar o ensino. Isso pode ser alcançado por meio de atividades que incentivem a interação, como fóruns de discussão, projetos colaborativos e encontros síncronos. O professor deve criar um ambiente que seja acessível, inclusivo e que promova a participação ativa dos alunos, mesmo em um formato on-line. É importante não perder de vista que o estudante é também construtor do conhecimento e, sobretudo, de um conhecimento situado em seu contexto histórico e social. Trazer conhecimentos e saberes locais para o ambiente de aprendizagem é fundamental.
- Apoio e Motivação: o acompanhamento contínuo dos alunos é essencial. Isso envolve devolutivas regulares, orientações personalizadas e o incentivo à interação entre os estudantes. A utilização de tecnologias de acompanhamento, como as oferecidas pelo Moodle, pode ser uma aliada importante, mas é fundamental que o professor também realize intervenções proativas para ajudar os alunos a superarem dificuldades e se manterem motivados. A motivação também pode emergir de uma autorreflexão dos estudantes sobre seu processo de aprendizagem na realidade em que vive e no âmbito mais amplo de sua formação. Busca-se, assim, uma formação crítica e emancipatória.
- Formação Contínua: para que o professor atue de forma eficaz na EaD, ele precisa estar em constante atualização. Isso envolve não apenas o domínio das ferramentas tecnológicas, mas também a promoção de práticas pedagógicas que possibilitem um ensino mais empático e centrado no aluno. O professor deve ser um facilitador do processo de aprendizagem, estimulando a curiosidade e o pensamento crítico, e não apenas um transmissor de informações.
- Devolutiva e Avaliação Contínua: a devolutiva construtiva é uma ferramenta poderosa na educação a distância. No entanto, ela precisa ser mais do que apenas uma correção de atividades. O professor deve utilizá-la como um meio de orientar o aluno no seu desenvolvimento, promovendo reflexões sobre o conteúdo e as estratégias de aprendizagem utilizadas. Essa devolutiva não precisa ser necessariamente individual. Como alternativa coletiva, a partir dos resultados gerados pelas discussões e atividades, é possível realizar uma devolutiva geral aos estudantes, promovendo um processo de avaliação contínuo e formativo.
- Avaliação por pares: em contextos de EaD, nos quais a interação direta entre estudante e professor é limitada e as turmas podem ter um número elevado de estudantes, a avaliação por pares oferece uma alternativa para promover a aprendizagem ativa, o pensamento crítico e a prática da autoavaliação. Ela consiste em um método em que os próprios estudantes avaliam o trabalho de outros colegas. O objetivo não é apenas atribuir uma nota, mas desenvolver a capacidade crítica, a responsabilidade e o olhar analítico dos estudantes sobre os critérios de qualidade de um trabalho.
A avaliação por pares é uma abordagem pedagógica que vem ganhando destaque na EaD e na EPT, especialmente como uma metodologia ativa que pode auxiliar no enfrentamento dos desafios na formação dos estudantes.
Título: Avaliação por pares na EaD.
Elaboração: Prosa (2025d).
No Moodle, grupos podem ser criados previamente pelo professor e/ou tutor para estabelecer os participantes do trabalho em pares. Ao propor as atividades, é importante discuti-las a fim de estabelecer critérios objetivos, para ajudar na uniformização da avaliação. Uma discussão sobre o que é uma devolutiva construtiva também deve ser apresentada.
Podemos citar duas ferramentas do Moodle que podem ser utilizadas com o propósito de implementar a avaliação por pares: a Base de Dados, que já comentamos no capítulo anterior, e o Laboratório de Avaliação, que permite a coleta, revisão e avaliação por pares do trabalho dos estudantes. A partir dessa ferramenta, os estudantes podem enviar qualquer arquivo digital, como documentos de texto ou planilhas, e também podem produzir um texto em um campo específico utilizando o editor de texto. Os envios são avaliados por um formulário com critérios múltiplos, definidos pelo professor.
O processo de avaliação por pares e a compreensão do formulário de avaliação podem ser praticados antecipadamente, com exemplos de envios fornecidos pelo professor, juntamente com uma rubrica. Os estudantes recebem a oportunidade de avaliar um ou mais dos envios de seus colegas. Os envios e os revisores podem ser anônimos, a critério do professor. Os estudantes obtêm duas notas em uma atividade de laboratório de avaliação – uma nota pelo seu envio e uma nota pela avaliação dos envios de seus colegas. Ambas as notas são registradas no livro de notas.
Assim, diante do exposto, podemos apresentar algumas vantagens da avaliação por pares:
- Estímulo à colaboração e ao aprendizado coletivo: ao avaliar o trabalho de um colega, o estudante assume uma postura crítica e, ao mesmo tempo, reflexiva sobre sua própria produção. A EaD pode ser um ambiente isolador, no qual muitos alunos se sentem desconectados do restante da turma, e a avaliação por pares pode auxiliar a quebrar essa barreira, pois pode promover a interação entre os alunos, permitindo que eles compartilhem conhecimentos, discutam ideias e aprendam uns com os outros.
- Desenvolvimento do pensamento crítico: a necessidade posta de que os alunos analisem profundamente o trabalho de seus colegas. Esse processo de análise crítica é uma forma de desenvolver habilidades de reflexão e de argumentação, que são atributos fundamentais para uma formação alinhada com os princípios da EPT. Quando os estudantes são levados a avaliar o trabalho de outros, eles precisam identificar pontos fortes e fracos, argumentar de maneira lógica e construtiva e sugerir melhorias, enriquecendo também suas habilidades de comunicação.
- Autonomia do estudante e a autorregulação: os alunos podem se tornar mais conscientes de suas próprias produções e de como elas podem ser melhoradas. Por meio da avaliação por pares, podem ser incentivados a refletir sobre seus próprios desempenhos e a identificar áreas em que precisam se aprimorar. Esse processo de autorreflexão está alinhado com a metodologia ativa da EaD, que coloca o aluno no centro do seu aprendizado, estimulando-o a assumir mais responsabilidade pelo próprio desenvolvimento acadêmico.
- Combate à evasão e desmotivação: a criação de um ambiente mais dinâmico e participativo pode reduzir o isolamento do estudante. Quando os estudantes sabem que irão avaliar o trabalho de um colega e serão avaliados por ele, há a possibilidade de que ocorra um incentivo adicional para se dedicarem ao conteúdo e ao processo de aprendizagem, o que precisa ser mesclado com a criação de uma sensação de coletividade e parcimônia. A sensação de pertencimento a uma comunidade de aprendizado, gerada pela interação constante entre os estudantes, pode aumentar o engajamento e motivar os alunos a persistirem nos estudos.