Currículo Integrado
No Brasil, a ideia de currículo integrado sempre esteve muito relacionada à oferta de cursos técnicos articulada ao Ensino Médio. Isso porque a conformação do tecnicismo provocou a incorporação do dualismo escolar de forma bastante específica na legislação educacional. Desde a primeira Lei de Diretrizes e Bases (LDB), em 1961, passando pela política educacional da Ditadura Militar até as novidades trazidas pela redemocratização, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), de 1996, e a adoção do programa neoliberal, em todas essas etapas estiveram em cena intensos debates sobre possibilidades de enfrentar a estrutura dual do Ensino Médio.
Mas, em que consiste exatamente a ideia de dualismo escolar? Essa ideia e sua outra face, a noção de integração, são exclusividades da última etapa da Educação Básica, isto é, o Ensino Médio? Ou seria possível falar em integração e currículo integrado para qualquer nível, etapa ou modalidade de ensino? Vejamos mais de perto alguns aspectos desses problemas.
No capítulo 1, vimos que os dois polos da principal contradição capitalista se expressam na coexistência de duas redes escolares. Tais redes são definidas pela origem de classe da clientela que as acessa. Denominamos esse fenômeno de unidade contraditória do sistema educacional e o definimos como o principal fator reprodutor da divisão do trabalho capitalista.
Tanto os conhecimentos ensinados quanto as habilidades básicas necessárias a portar-se como trabalhador são escolhidos criteriosamente pelos dois ramos da escola capitalista. Não basta que as classes populares adquiram “mais educação”, para que a contradição entre trabalho manual e trabalho intelectual esteja resolvida: o está presente na própria função cumprida pela escola de reproduzir a estrutura de classes do modo de produção.
A ideia de integração nasce exatamente da busca por superar essa contradição e projetar uma escola adaptada a um processo de transição social. Há, nesse sentido, dois níveis teóricos para pensar o conceito de currículo integrado:
- O nível mais geral da situação histórica do modo de produção. Nesse contexto, estamos pensando a escola integral como travessia democrática e popular para uma nova realidade, a partir dos princípios da educação politécnica. Integra-se, aqui, a ciência e a técnica, tensionando a fragmentação da própria estrutura do modo de produção capitalista.
- O nível mais específico e imediato dos saberes e conteúdos que serão ensinados. Pensa-se um eixo epistemológico para transmitir o conhecimento, baseando-se nos campos do saber tal como foram edificados historicamente: trabalho, ciência e cultura. Trata-se de um conhecimento concebido a partir de instrumentos político-pedagógicos específicos: a) é voltado à ; b) é produto do movimento histórico; c) assume a ciência a partir da realidade concreta dos fenômenos, buscando transformá-la.
Eis uma perspectiva geral para pensar sobre currículo, que pode ser adotada para qualquer oferta educacional. No nível mais específico, estamos pensando em garantir aos trabalhadores o acesso à ciência, integrando educação geral e preparação para uma profissão. No entanto, no nível mais geral, o currículo integrado aponta para uma nova forma de organização social e para um tipo particular de aparelho escolar. O debate normativo, no Brasil, esteve historicamente restrito à primeira dimensão, e como a fragmentação é mais nítida na etapa final da educação básica, então, a questão sempre esteve restrita às análises do ensino médio. Porém, é possível falar em currículo integrado para qualquer nível de oferta da EPT.
De todo modo, é fundamental que o gestor conheça com propriedade a legislação educacional vigente sobre a EPT. O Decreto n° 5.154 de 2004, cujo conteúdo foi incorporado à LDBEN por meio da Lei n° 11.741 de 2008, rompe com as normativas do período anterior que proibiam desenhos curriculares integrados. A partir de 2004, a articulação entre a formação profissional, por meio de cursos técnicos, e o Ensino Médio, concebida de maneira orgânica em um mesmo currículo e com matrícula única, passou a ser permitida no Brasil e assim permanece até os dias atuais. Há que se considerar, no entanto, a fragilização dessa concepção a partir das mudanças oriundas do Novo Ensino Médio (NEM), a partir de 2016; a esse respeito, indicamos a leitura do artigo "A reforma da educação profissional e tecnológica no Brasil: 2016 a 2021", de Pelissari (2023).
Por fim, cabe salientar que o currículo integrado tem como objeto um tipo específico de trabalho pedagógico. Este é um tema com vastas contribuições na ; aqui, fazemos apenas algumas indicações para evitar confusões correntes. Tais indicações trazem contribuições ao processo de administração da EPT integral e integrada, a partir do acompanhamento do currículo.
1. O currículo integrado não se resume à interdisciplinaridade. De fato, o princípio da dialética nos leva a observar a realidade em sua multiplicidade de determinações. No entanto, a ciência é desenvolvida a partir de um processo de seleção de métodos e construção de epistemologias que dão origem aos saberes de referência (Matemática, Física, Língua Materna, Sociologia, Biologia etc.). O currículo organiza tais conhecimentos específicos e os reconstrói para serem transmitidos. É saudável que eles sejam postos em diálogo, objetivando criticamente o retorno à realidade para transformá-la. Mas, na perspectiva do currículo integrado, isso não deve ser feito anulando as epistemologias de cada ciência de referência, e sim articulando-as sob a integração entre a ciência, a cultura e o trabalho. Todo currículo integrado busca a interdisciplinaridade, mas nem todo currículo interdisciplinar é, necessariamente, integrado.
2. A ciência é o critério central de referência do currículo integrado. Mesmo que estejamos tratando da formação de profissionais, o caráter de classe do currículo integrado exige que a escolarização seja construída com forte compromisso com a realidade, buscando interpretá-la, sistematizá-la e transformá-la. Para isso, lança-se mão de instrumentos essencialmente científicos, que subordinam os saberes práticos. O projeto de profissionalização da EPT integral e integrada tem, assim, um rigoroso conteúdo científico, exigindo boa formação dos educadores, conhecimento de variados métodos e aprofundamento teórico.
3. A formação continuada e momentos de planejamento são exigências do currículo integrado. O educador que atua na EPT integral e integrada é um sujeito científico, questionador, atualizado dos métodos relativos à produção do conhecimento. Além disso, exercita constantemente o processo de avaliação formativa de seus estudantes e de toda a comunidade escolar. Isso exige que a instituição defina políticas específicas para a formação continuada de seus quadros – tanto em nível de pós-graduação quanto no diálogo com o campo científico, como participação em congressos, publicação de trabalhos acadêmicos, vínculo com a comunidade etc. – e para o trabalho de planejamento. É altamente recomendável que este último ocorra em equipe e com carga horária semanal prevista na jornada de trabalho dos educadores.